Foto ilustrativa (Reprodução/Marvel Studios) Belarmino estava cortando um dobrado para conseguir renda extra e pagar contas atrasadas. Por isso, não pensou duas vezes quando um amigo o convidou para trabalhar em uma festa infantil. A missão era substituir o rapaz que vestia a fantasia do Incrível Hulk. Por quatro horas, receberia um cachê de R\$ 250. “É fácil. A máscara já tem a expressão de raiva. Você só precisa interagir com as crianças, dar uns gritos e mostrar que é forte”, instruiu o colega que fazia parte do grupo de animação de eventos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Belarmino topou, mas só pelo dinheiro. Não gostava de lugares com muita gente e não tinha nenhuma vocação para ser animador de festas. No dia e na hora marcados, se encontrou com os demais super-heróis no bufê infantil. Batman, Superman, Mulher Maravilha e Homem Aranha também estavam lá. Com dificuldade, vestiu a fantasia verde com enchimentos e sentiu desconforto. Pensou no dinheiro que receberia e resolveu entrar na dança. Música alta. Alegria. As crianças gritavam e aplaudiam os personagens que acabavam de chegar à festa. Dentro da pesada fantasia, Belarmino tentava se mexer. Movia os braços para exibir os músculos e emitia ruídos estranhos, se esforçando para imitar o Incrível Hulk. A festa seguia e os minutos custavam a passar. Enquanto o Homem Aranha era esbelto e só faltava saltar sobre as mesas, Belarmino mal conseguia se mexer. Andava de forma desajeitada e às vezes se isolava em um canto. Virou motivo de piada entre os convidados. Percebeu olhares e risos de deboche. Dentro da fantasia verde, suava muito. “Esse Hulk deve estar com dor de barriga”, falou o pai de uma das crianças, ao mesmo tempo que ria e mastigava uma coxinha frita. Não demorou muito para a meninada deixar de lado os outros super-heróis e começar a ridicularizar o monstro verde. Puxões nos braços, chutes nas pernas e tapinhas na cabeça. Belarmino não suportava mais aquela situação. Era muita humilhação aguentar crianças tão mal-educadas. Até que dois garotos maiores correram e o empurraram pelas costas. A imagem do Incrível Hulk desabando no salão de festas arrancou gargalhadas das crianças e de seus pais coniventes. Foi a gota d’água. Impulsionado por uma raiva fora do comum, o pobre Hulk se levantou e urrou. O grito ecoou pelo ambiente. As crianças, agora assustadas, se afastaram. Belarmino finalmente parecia ter incorporado o espírito do icônico super-herói. Caminhou até uma das mesas do bufê e jogou louças e copos no chão. A música parou. Gritos de espanto. Xingamentos. Crianças chorando. Hulk virou outra mesa. Algumas pessoas corriam e outras tentavam contê-lo, sem sucesso. Belarmino estava cego. Uma força descomunal o dominava. Em sua cabeça, dívidas, humilhações e desrespeito. Os colegas que estavam trabalhando tentaram segurá-lo, mas o quebra-quebra no salão só acabou com a chegada da polícia. Sem máscara e cabisbaixo, mas ainda com o resto da fantasia vestindo seu corpo magro, Belarmino foi levado para a viatura, sentindo na alma a dor dos injustiçados e oprimidos. E o vazio de não ter, ali, nenhum super-herói para salvá-lo.