Acabei de tomar um banho de chuva. Não foi de propósito, mas apenas uma dentre as milhões de casualidades que acontecem por aí todos os dias neste planeta chamado Terra. Uma breve saída para o almoço e a água que desabou do céu me pegou imprudentemente desprevenido. Até poderia ter carregado o guarda-chuva, mas resolvi arriscar e me dei mal. Agora estou aqui, diante do computador, com a roupa molhada e os cabelos desgrenhados. Na verdade, acho que esta chuva foi a despedida do inverno. Molhou os telhados, o asfalto, as copas das árvores, as calçadas e os sapatos de toda a gente. Molhou a terra e as plantas, preparando sabiamente a vida vegetal para a chegada da primavera, com todas as suas cores e perfumes. Pensando bem, eu arrisco a dizer que não me dei mal. Que bom que desprezei o guarda-chuva! Estamos tão acostumados com escritórios, automóveis, apartamentos, paredes brancas e chuveiros com água quentinha, que por vezes nos esquecemos de coisas singelas da vida, como admirar estrelas no firmamento, tomar um banho de chuva inesperado ou procurar nuvens com formato de bichos. Aliás, experimente parar em uma esquina movimentada e ficar cinco minutos olhando para o céu, sem dar qualquer explicação. No mínimo, você será visto como um sujeito que tem comportamentos estranhos. Alguns vão achar que você é um extraterrestre que despencou do disco-voador. Mas, se em vez do céu você fixar seus olhos em um smartphone e ficar estático ali, na mesma esquina movimentada, será apenas mais um no meio da multidão, indiferente aos demais, totalmente integrado ao caótico cenário da vida moderna. Um orgulhoso cidadão do século 21. Voltando aos banhos de chuva, quem nunca brincou assim quando criança? Lembro que na época da turma do futebol de praia o tempo instável nunca foi um obstáculo para as gloriosas partidas disputadas nas tardes de sábado. Não havia um banhista sequer na praia cinzenta, mas nós, sonhadores e malucos, estávamos ali, correndo, driblando, escorregando na areia, armando jogadas e comemorando gols que nunca passaram no Fantástico. Com o passar do tempo, virou clichê dizer que tomar banho de chuva deixa a gente de ‘alma lavada’. Fulano estava triste, dançou na chuva e agora está feliz. Acho que não é bem assim, seria muita pretensão. Mas é fato que nós, enquanto seres vivos, precisamos sim sentir as manifestações da natureza. Afinal, somos parte dela. Minha roupa está secando no corpo, meu cabelo continua úmido e desarrumado, mas ainda assim sou grato à chuva. Ela me salvou da escassez de ideias para a crônica desta semana. E agora, justamente enquanto escrevo essas últimas linhas, já não sei mais como está o tempo lá fora. Mas fecho os olhos por um instante e consigo imaginar o cheiro de terra molhada e a água que escorre delicadamente pelas folhas, traçando caminhos tortuosos e imprevisíveis, como a própria vida da gente é. Pequenas lágrimas que deslizam pacientemente pela vegetação e gotejam na terra. Gratidão à chuva...