(FreePik) Encontrei um cantinho para sentar próximo ao balcão da padaria. Era sábado à noite, havia saído do trabalho e precisava forrar o estômago antes de chegar em casa, tomar um banho e me jogar na cama para ser vencido pelo sono. Um pedaço de pizza de calabresa com cebola e uma latinha de refrigerante. Gelo e limão no copo, por favor. Olhei para aquela fatia de pizza que se esparramava sobre o pratinho branco e instantaneamente voltei no tempo. Exatos 40 anos. Pelo menos uma vez por mês, sábado à noite, comíamos pizza em casa. Não sei dizer quanto custava, em 1985, uma redonda feita no forno a lenha da extinta pizzaria do bairro. Era um tempo de muita disciplina financeira e controle de gastos. Mas, uma vez por mês, tinha pizza com coca-cola. Naquela época, serviço de entrega era raridade. E também ainda não tínhamos telefone residencial para fazer o pedido. Melhor assim. Era muito mais legal aquele ‘ritual’ de sábado à noite. Saíamos de casa, meu pai e eu — garoto com 11 anos de idade —, caminhávamos cinco quadras e chegávamos à pizzaria. Lembro-me bem do cheiro delicioso dos ingredientes invadindo o salão do restaurante, do calor que vinha do forno e da lenha que queimava no fogo controlado. Eu ficava observando o trabalho incrível do pizzaiolo, que com muita destreza, agilidade e talento transformava um pedaço disforme de massa em uma maravilhosa pizza de calabresa com cebola, azeitonas e orégano. Confesso que nunca mais encontrei uma pizza como aquela. Tenho a impressão de que as fatias de calabresa eram fritas, o que as deixavam muito mais saborosas e temperadas. Eis que, 40 anos depois, em um sábado à noite, estou novamente diante de um pedaço de pizza. Desta vez, cercado por pessoas desconhecidas, sem o aconchego da cozinha da velha casa, sem a mesa caprichosamente arrumada pela minha mãe e sem a companhia de meu pai, que partiu inesperadamente no ano passado. Sob o prato, não existe mais aquela toalha colorida com figuras geométricas. Apenas o mármore escuro e frio típico das refeições rápidas, da pressa nossa do dia a dia, da impessoalidade. Pouso meus olhos sobre o pedaço triangular que me foi servido. Está esfriando no prato. As pedrinhas de gelo, coitadas, derretem dentro do copo. Melhor comer logo e liberar o espaço no balcão. Ninguém tem culpa dessa minha mania de ser saudosista, até mesmo na hora de comer a pizza de sábado à noite. Servidos?