(FreePik) A madrugada não foi feita apenas para dormir. Perdoem-me os que sofrem de insônia e que buscam, em vão, o descanso reparador no lento avanço dos minutos, mas há tanta coisa acontecendo nessas horas que antecedem o alvorecer... Imagine você, em plena madrugada, sair do seu próprio corpo pesado como uma rocha para flutuar aleatoriamente por aí. Já pensou nas imagens que veria? Nas ruas, figuras esquecidas. Corujas misteriosas em árvores e gatos vadios sobre os telhados. Nos hospitais, encontraria pacientes que sonham acordados com a cura e plantonistas dedicados. Imagine você, astronauta invisível da madrugada, ouvir os sons dos pensamentos e das orações que sobem aos céus durante as horas mais silenciosas! Onde o silêncio? Descobriria, provavelmente, que as palavras são mais numerosas que as estrelas que enfeitam o firmamento. Veria que não são poucos os que se empenham estudando para provas e concursos públicos enquanto outros dormem. Durante a sua incrível jornada noite adentro, veria também que são numerosos aqueles que não encontram o sono porque estão aflitos com dívidas e credores. Definitivamente, a madrugada não foi feita apenas para dormir! Cabe aqui um aviso: ao volitar nas horas mais secretas da noite, tenha bom senso. Tome cuidado para não ser indiscreto e invadir a sagrada privacidade dos que se amam. E não esqueça de valorizar os pais que ignoram o descanso noturno para zelar pelo recém-nascido. Certamente, na madrugada também há diversão. Música, cores, perfumes e flerte. Antes de prosseguir com o seu passeio secreto, faça uma pausa para dançar, mesmo que os seus passos sejam confusos e desconcertados. Ninguém verá seus movimentos em pleno ar. Existem, ainda, os que encontram o lazer na solitude, jogados no sofá da sala durante a madrugada, com um saco de pipoca, uma bebida e um filme ou série qualquer. Imagine como seria incrível dar a volta ao mundo em plena madrugada. Encontrar o sol brilhando lá no Japão com ruas tomadas pela multidão apressada; reconhecer a grandeza da paisagem branca do Monte Everest e encantar-se com o alvorecer alaranjado sobre o velho continente. De volta à sua cidade, teria tempo ainda de encontrar os que levantam antes do sol para iniciar a luta diária pela sobrevivência. O despertador que toca e o aroma de café que se espalha como perfume matinal. No fim da madrugada, veria os primeiros trabalhadores que saem às ruas. Gente caminhando, transporte público, som de motores e bicicletas. O cotidiano a ganhar vida e movimento. Chega o momento de voltar para o corpo, viajante das horas noturnas! Na mente, talvez tudo não passe de lembranças de um sonho incomum. No peito, porém, reverberá a certeza de que a madrugada não foi feita apenas para dormir. No Brasil ou no Japão, a quietude dessas horas é apenas ilusão, pois sempre existirá muito barulho dentro desse silêncio.