(Reprodução/ Site Grêmio) As notícias recentes de Martin Braithwaite, do Grêmio (foto), com a ruptura do tendão de Aquiles, e de André Silva, do São Paulo, com lesão multiligamentar no joelho, reacendem uma discussão que vai muito além do drama esportivo. Estamos diante de lesões que não se resolvem com pressa nem com vontade. Elas exigem ciência, paciência e um olhar integral para o corpo humano. A fragilidade da mola propulsora O tendão de Aquiles, considerado a “mola propulsora” do movimento, é essencial para correr, saltar e mudar de direção. Sua ruptura pode afastar atletas por até nove meses, e mesmo após a cirurgia, o retorno depende de readquirir força, elasticidade e, principalmente, confiança no gesto motor. Já as lesões de joelho envolvendo dois ligamentos, como no caso de André Silva, desafiam até os protocolos mais modernos: não basta recuperar a estabilidade, é preciso reeducar o corpo a confiar no movimento de giro, freio e arranque. Mais que fisioterapia Embora fisioterapia e reabilitação neuromuscular sejam indispensáveis, a ciência mostra que nutrição é parte ativa da recuperação. Estudos no American Journal of Clinical Nutrition demonstram que a cicatrização de tecidos conjuntivos depende diretamente de um aporte adequado de proteínas e aminoácidos essenciais. Sem esse suporte, a síntese de colágeno fica comprometida, atrasando a regeneração. Além disso, revisões publicadas em Nutrients indicam que a vitamina C desempenha papel crucial na formação das fibras de colágeno, enquanto minerais como zinco e cobre atuam como cofatores enzimáticos nesse processo. O ômega-3, por sua vez, auxilia no controle da inflamação, acelerando fases iniciais da recuperação. O prato como extensão do tratamento No dia a dia do atleta, isso significa mais que suplementos. É organizar refeições que incluam proteínas magras, frutas cítricas, vegetais coloridos, oleaginosas e peixes ricos em ácidos graxos essenciais. Em muitos casos, protocolos de colágeno hidrolisado associados à vitamina C são usados como adjuvantes na recuperação de tendões e ligamentos. A ciência não promete milagres: uma lesão de Aquiles não se resolve em semanas. Mas há evidências sólidas de que uma nutrição ajustada reduz o tempo de cicatrização e melhora a qualidade do tecido regenerado. Para clubes que investem milhões em atletas, ignorar esse fator é perder não só jogos, mas patrimônio humano. Lição para fora do campo Se no futebol de elite a nutrição é estratégica para encurtar afastamentos e garantir retorno com segurança, na vida comum ela é decisiva para qualquer processo de recuperação. Uma entorse, uma cirurgia e até uma fratura simples demandam energia e substratos que só vêm da alimentação. A mensagem é direta: respeitar o tempo do corpo e oferecer o combustível certo é tão importante quanto fazer fisioterapia ou tomar medicação. O erro mais comum é acreditar que basta “esperar sarar”. Na prática, é a combinação de descanso, movimento progressivo e nutrição adequada que devolve funcionalidade e confiança. Do campo para o dia a dia Como gestor de performance, não prescrevo dietas, mas aprendi que alguns hábitos fazem diferença para qualquer pessoa. Proteína em cada refeição: carnes magras, ovos, iogurte ou leguminosas ajudam a reparar músculos e tecidos. Cores no prato: frutas e vegetais variados fornecem antioxidantes e vitamina C. Gorduras boas: peixes, sementes e oleaginosas reduzem inflamação. Água como aliada: hidratação adequada acelera todos os processos de regeneração. Respeite o tempo do corpo: não apresse a volta após dor ou lesão; paciência também é parte da performance. Mais consciente, mais forte As lesões de Braithwaite e André Silva nos lembram que performance não é invulnerabilidade. O corpo fala, pede pausa e cobra respeito. A boa notícia é que ciência e nutrição, quando integradas, transformam recuperação em oportunidade: de voltar mais forte, mais consciente e mais preparado. Dentro e fora de campo, a vitória começa quando entendemos que não existe reabilitação completa sem saúde integral. *Gestor de performance esportiva com atuação no futebol de elite