Somos um país que anseia por capital, que clama por eficiência para escoar suas riquezas, mas que, ao mesmo tempo, nutre uma desconfiança crônica, quase patológica, de quem se dispõe a investir. Governo e setor privado se emaranham em uma tortura burocrática mútua. Ambos têm culpa. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Em nações onde o pragmatismo não é um artigo de luxo, um projeto portuário nasce de uma necessidade objetiva, que é discutida tecnicamente e, com as devidas licenças e contrapartidas, sai do papel. É um diálogo. No Brasil, é uma guerra de trincheiras. O governo e o investidor não discutem um projeto; eles iniciam uma saga, uma odisseia homérica de protocolização de estudos. Estudos para o governo, para a agência, para o tribunal, para o ministério, para o raio que o parta. Pilhas de papel que, na prática, podem servir mais como um escudo contra futuras acusações do que como um farol para o desenvolvimento. O tempo e o dinheiro gastos nessa via-crúcis probatória são um escândalo silencioso. São recursos que poderiam estar dragando um canal, construindo um berço de atracação, investindo em tecnologia ou, quem sabe, erguendo uma creche para a comunidade portuária. Mas não. O capital é torrado para alimentar a desconfiança. O custo de oportunidade é brutal. Avaliar um investimento no Brasil virou uma ciência oculta, um exercício de futurologia para decifrar não a viabilidade econômica, mas por quantos meses mais o projeto atrasará. Essa paranoia coletiva cria um campo de batalha surreal. De um lado, o investidor, exausto e escaldado. Do outro, o Estado, desconfiado, muitas vezes com razão para sê-lo. E, como se não bastasse, um terceiro, quarto, ou quinto grupo que emerge para contestar, para embargar, para proteger um interesse qualquer, muitas vezes legítimo, porém ignorado nas etapas anteriores do projeto. É uma síndrome de perseguição, um xadrez onde cada um tenta antever a rasteira do outro, seja ele um competidor, um investidor, funcionário público ou o próprio fiscal da lei. Até quando? Onde isso vai parar? Quando teremos a coragem de desenhar um projeto desde o início, onde os argumentos apresentados pelos vários lados são vistos como parceria e não como armadilha, e onde o mérito técnico se sobrepõe ao grito. O Brasil precisa parar de se autoboicotar. Menos divã, mais guindastes. Mas sejamos justos. No meio desse nevoeiro de desconfiança, existem ilhas de lucidez. Profissionais do serviço público, e executivos e engenheiras do setor privado que ainda não jogaram a toalha. Jornalistas que buscam a verdade e não apenas a matéria de capa. São homens e mulheres que, por trás das cortinas do poder e longe dos holofotes, travam batalhas diárias pelo bom senso. Entendem que o projeto não é um fim em si mesmo, mas um meio para um país mais competitivo. Enquanto isso, os milhares de profissionais de comércio exterior resistem, enfrentando toda segunda-feira, os mais três mil e-mails não respondidos da semana anterior. Meu absoluto respeito a todos vocês. Esses profissionais são a verdadeira argamassa que impede o desmoronamento completo da nossa infraestrutura. São eles que, numa reunião tensa, lembram a todos que o objetivo comum é o navio no cais, a carga no caminhão, a riqueza circulando. Sua resistência silenciosa e sua competência são a prova de que o “projeto Brasil” ainda tem salvação, apesar dos seus sabotadores.