Tecon Santos 10 deverá receber as maiores embarcações do mundo, com 400 metros de comprimento, após todos os investimentos; atual cais será aproveitado pelo arrendatário (Alexsander Ferraz/AT) Na última terça-feira, enquanto enfrentava o caos do trânsito paulistano, escutei ao vivo a audiência pública do novo terminal de contêineres de Santos (Tecon Santos 10), o qual, dentro do meu imaginário, apelidei carinhosamente de Tecon Pelé. O trânsito e a audiência pública foram um exercício de paciência e uma imersão na frustração. A cada metro vencido no trânsito, via mais de perto a escola da minha filha, e a cada nova contribuição trazida na sessão, via o terminal de contêineres mais distante. Um cansaço profundo se instalou. Defender seu lugar na fila de carros da escola é uma luta pelo óbvio. Exaustivo também é enfrentar a teimosia da mentira com a verdade. Já dizia Euclides da Cunha que o motorista paulistano e o investidor brasileiro são, antes de tudo, fortes. O caos do trânsito de São Paulo já existia antes da escola, tal qual o trânsito da cidade de Santos já existe antes do terminal de contêineres. Negar a devida importância à escola, culpando-a pelo trânsito urbano, é o mesmo que está se tentando fazer no cais santista. O terminal de contêineres, assim como a escola, é uma peça vital para o desenvolvimento, e a insistência em negá-lo ou cautelosamente atrasá-lo, sob falsos pretextos, é um sintoma da nossa teimosia em abraçar o progresso. A história do terminal de contêineres, que teima em não sair do papel, é um retrato vívido de como narrativas podem manipular a realidade, atrasando o progresso e obscurecendo o futuro. O que deveria ser um marco para a infraestrutura portuária brasileira transformou-se em um labirinto de entraves, onde a verdade se dilui. O primeiro ato dessa saga foi um engodo que convenceu governo e população da desnecessidade do novo terminal. A alegação de capacidade ociosa soou como um canto de sereia, desviando a atenção da necessidade de expansão e modernização. Acreditamos no canto, e nos esquecemos que portos modernos atraem empresas, geram empregos e desenvolvem toda a região. Uma nova narrativa foi então lançada: a necessidade de limitar a participação de empresas na licitação, criando reserva de mercado para os incumbentes e diminuindo a concorrência. O debate, que deveria ter se concentrado em como construir o terminal mais avançado possível, incluindo, por exemplo, melhores acessos terrestres, descambou para uma disputa estéril, atrasando o projeto em três longos anos, quando já poderíamos estar colhendo os louros de um trabalho bem executado. Agora, quando a luz no fim do túnel parecia acender, surge um novo obstáculo: o caos no trânsito. A preocupação é válida, mas a solução não reside em mais atrasos. O tempo de implementação do terminal oferece a oportunidade de planejar e executar soluções viárias eficazes. O progresso exige superar obstáculos. No caso da escola de minha filha, persisto no trânsito, mas com a certeza de que o conhecimento que ali é passado transformará o País. Na insistência de que Santos é grande e merece mais, persisto também, mas sem a mesma certeza de que conseguiremos transformar o País.