Era pré-adolescente ainda quando meu pai, o Seu Júlio, apareceu com o livro Ed Mort e Outras Histórias, de Luis Fernando Verissimo. Me disse que eu poderia ler, que era divertido, simples e adequado à minha idade. E assim foi. As aventuras daquele detetive trapalhão, sempre ferrado e sem nenhum tostão no bolso, tão brasileiro quanto todos os que me cercavam, me encantou. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ria a cântaros, ao mesmo tempo em que descobria o prazer da leitura, a possibilidade de desembaraçar aquele emaranhado de letras que até então pareciam indecifráveis nas páginas. A partir de então, os livros do tal Luis Fernando Verissimo – de sobrenome igual ao de outro escritor até então incompreensível que tinha na estante do meu pai – passaram a ser uma diversão familiar. Assim como os discos do Chico Buarque, cada um que era lançado circulava de mão em mão lá em casa. O tempo passou rápido, sem que eu me desse conta que o Ed Mort havia sido, sim, a porta de entrada para outras ‘drogas’ muito mais pesadas. O canhestro detetive foi, enfim, o início de uma vida cercada pelos livros, sobretudo a Literatura. Fosse ela a poesia do Drummond, os romances de Machado de Assis e até mesmo o tal de Érico Verissimo. Seu pai veio logo a seguir, com aquele inesquecível calhamaço de inúmeros volumes chamado O Tempo e o Vento, que não por acaso contava a formação do local de onde vinha parte da minha família. Mas o próprio Luis Fernando, que lia diariamente nos jornais, também foi capaz de romances mais densos, sempre permeados por aquele seu bom-humor agudo, que conheci lá atrás, bem menino e me perseguiu por toda a vida. Um dos mais impressionantes foi O Clube dos Anjos, que fala da gula, em uma série sobre os sete pecados capitais. Não bastasse isso tudo, Luis Fernando foi também um apaixonado por jazz, chegando a compor a hilária Muda Brasil Tancredo Jazz Band, formada por, entre outros humoristas, os irmãos Paulo e Chico Caruso, que assim como ele sempre foram músicos bastante talentosos. Vale, e muito, procurar o álbum por aí. Por uma grande ironia do destino, Luis Fernando Verissimo, escritor de outros tempos, foi, ao lado de Clarice Lispector, uma das maiores vítimas brasileiras da internet. Não foram poucos, e nem são ainda, os textos atribuídos a ele que circulam nas redes que nunca foram – e nem poderiam – ser dele. Espertalhões sempre souberam que seu nome é um selo de qualidade e certeza de sucesso. Acordo num sábado nublado com a notícia da sua morte. Me vieram à memória Seu Júlio e o Ed Mort, as crônicas do Luís Fernando Veríssimo nos jornais diários, seus romances e todo um mundo que a sua sagacidade permitiu que se abrisse para nós. Me dou conta então que, sem ele, esse escritor tão fabuloso, sagaz, simples e discreto, nem minha vida, nem a de milhões de outros leitores, seria a mesma.