(Thereza Eugênia/ Divulgação) Foi em fevereiro de 1974, portanto há pouco mais de 50 anos. Eu era então um garoto de 13 anos. O álbum de lançamento da banda Secos & Molhados, de 1973, era o maior sucesso da época e eles iriam se apresentar em Santos. Consegui o ingresso e me enfiei no meio da multidão, feliz da vida. Havia um porém. Minha mãe estipulou que eu chegasse em casa impreterivelmente até as 22 horas. Sozinho, encurralado no meio da plateia, em uma época em que não havia controle de público e, portanto, enfiavam quantas pessoas coubessem, via o relógio andar e ficava cada vez mais aflito. No final das contas, lá pelas 23 horas, já muito atrasado para o horário da volta, deixei o ginásio antes do show começar e fui pra casa. Quando cheguei, levei uma bronca enorme, fiquei de castigo e nunca mais vi os Secos & Molhados, que veio a perder o Ney Matogrosso no ano seguinte e, pelo menos para mim, toda a graça. Sem me dar conta durante todos esses anos, frequentador assíduo de shows musicais, também nunca havia visto o Ney. Até a noite do último domingo, quando ele, já com 84 anos, veio se apresentar no Allianz Parque, em São Paulo, para uma multidão muito maior do que aquela daquele longínquo fevereiro. Eu prestava contas com o passado, sabia disso. O que não imaginava é que também com o futuro. Aquele mesmo artista que transformou tudo quando éramos apenas garotos seguia ali, mais vivo e transformador do que nunca. Assim que ele entrou no palco, uma atmosfera indescritível se formou, em uma perfeita cumplicidade entre ele, a banda e milhares de jovens de todas as idades. Quando cantou as primeiras notas do refrão de Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua, canção de Sérgio Sampaio lançada no mesmo ano do lendário álbum de estreia dos Secos & Molhados, todos por ali sabiam exatamente do que se tratava. Éramos, enfim, e mais uma vez, o mesmo bloco, aquele que nunca, jamais, poderia deixar de existir e resistir. A despeito das questões políticas e libertárias de que Ney Matogrosso sempre foi portador, mesmo sem fazer questão e nem desejar ser, há a música. Aquela mesma que sempre houve. Resisto aqui à tentação de chamar a atenção para a idade do artista. Pouco importa. Em sua apresentação não há indulgência de espécie alguma. O que assistimos, perplexos, é um espetáculo musical de categoria internacional e extremo vigor físico, pronto para qualquer palco do mundo. Ele canta maravilhosamente, como sempre cantou. A banda é extraordinária, com arranjos certeiros. Os músicos escapam todo o tempo das tentações e do lugar comum. Tudo o que se vê e ouve é perfeito e poderoso. O repertório entra e escapa dos inevitáveis sucessos todo o tempo. Estamos em um estádio, calculo que umas 40 mil pessoas. Em muitos momentos do espetáculo, o clima corresponde a isso. Em vários outros, como na sua antológica interpretação para Como 2 e 2, de Caetano Veloso, Ney nos devolve para o intimismo de um teatro. E o público responde e corresponde, indo dos gritos incontrolados às aclamações de pé que só são dispensadas aos grandes artistas. Ney agradece. Fala bem pouco e agradece, tímido. Ao fim e ao cabo, saímos todos, sem exceção, maravilhados. Lembro, inevitavelmente, da minha mãe. Desta vez, já passado dos 60, pude ficar até o final. Sou todo compreensão e, finalmente, grato. Ney Matogrosso é daqueles artistas que tornam a vida de todos muito melhor. E esta noite, mais de 50 anos depois, pude perceber perfeitamente a razão.