(Alexsander Ferraz/AT) Nasci em Santos. E, como dizia o poeta, principalmente vivi em Santos. Em uma dessas guinadas da vida, já passado dos sessenta, vim morar na Praia Grande. A primeira, velha e linda senhora, fez 480 anos na última segunda-feira. A segunda, também bela e mais jovenzinha, fez 59 anos na segunda-feira anterior. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os séculos que separam as duas também produziram dois mundos totalmente diferentes. Algo que só consegui perceber depois de viver o dia a dia de Praia Grande. Explico. Quando resolvi vir para cá, trazido pelas circunstâncias, percebia o espanto de vários amigos santistas: “Praia Grande!?” De fato, quando era criança e até a adolescência, essa cidade com os seus 22 quilômetros de praia era um enorme descampado com pouquíssimos prédios e algumas casas, e nada mais. O tempo passou, Praia Grande cresceu e continua crescendo. Um corretor amigo me contou que, neste exato momento, 250 obras de grande vulto são construídas por aqui. Olho pela janela e confirmo pelo menos meia dúzia. Uma delas, inclusive, vai tirar cerca de 80% da minha vista para o mar. Coisas da vida. Assim como em Santos, por aqui também há dois mundos totalmente distintos. Se em minha cidade natal há a praia com seus bairros caros, a Zona Noroeste e um cinturão de favelas sobre palafitas, por aqui há também enormes diferenças: a orla, sobretudo o Canto do Forte, com suas mansões e apartamentos de alto padrão, as praias, por enquanto mais modestas, que vão desde a Aviação, em sentido Sul, as moradias mais simples que ficam para além da pista, ocupações etc. Mas os dois mundos são perceptíveis também em dias de sol. No início da década de 1950, praticamente dez anos antes de Praia Grande ser fundada, começaram a chegar por aqui as primeiras colônias de férias mantidas por sindicatos de trabalhadores. A maioria delas está localizada na Vila Mirim, na conhecida ‘Avenida das Colônias’. É emocionante dar uma volta por lá em um fim de semana. Com preços bem mais acessíveis do que os hotéis de luxo que normalmente circundam as orlas do País, a Praia Grande é a ‘Praia do Trabalhador’. É por aqui que, ainda, apesar da especulação imobiliária, tecelões, metalúrgicos, motoristas, professores, comerciários, químicos e farmacêuticos, entre vários outros profissionais, conseguem trazer suas famílias para o merecido lazer. Por outro lado, a Cidade tem sido contemplada com certo tipo de comércio que, até então, só existia nas grandes cidades do Brasil e do exterior. O Hard Rock Cafe é o último e mais ilustre exemplo. Mas há outros, com shoppings espalhados por toda a parte. No final das contas, é isso. As cidades crescem e se tornam cada vez mais inviáveis para os menos abastados. Sou filho de vendedor e dona de casa, e cresci em uma casa relativamente grande com goiabeira no quintal, no Boqueirão, em Santos. Hoje, isso seria impossível. A despeito das saudades da infância, adolescência, juventude, das ruas do nosso tempo etc., há um tempo muito mais perverso e rápido que engole todos os outros que a gente puder sonhar. Sinto que, por aqui, em alguns locais da Praia Grande, ainda sobrou um pouco do que foi Santos nas décadas de 1960 e 1970 (e antes, mas eu não estava por aqui pra ver). Daqui a pouco, isso também acaba. Já as saudades, não. Elas ficam sempre guardadas com a gente.