(Divulgação) Entre as inúmeras falácias que envolvem os Beatles, uma das piores é a de que Ringo Starr é um mau baterista. E, pior ainda, que ele é o sujeito mais sortudo do mundo, um músico ruim que foi parar na maior banda do planeta. A frase é muito repetida, sobretudo por músicos mais afeitos ao jazz e a gêneros mais elaborados. Acontece que Ringo é um baterista de rock, de música pop. E toca como poucos, empurra a banda para frente como quase nenhum outro, com a simples batida quatro por quatro. Ringo foi o último a entrar nos Beatles, em 1962, para substituir Pete Best, a pedido do produtor George Martin. Na época, ele já era considerado o melhor baterista de Liverpool, cidade portuária que era um celeiro de bandas significativas do período, no gênero que ficou conhecido como o Britpop. O título é mais ou menos similar – para que os brasileiros entendam – a ser o melhor guitarrista de Belo Horizonte nos tempos do Clube da Esquina, ou ainda, o melhor pianista do Rio de Janeiro na época da Bossa Nova. O fato é que, muito provavelmente, os Beatles não seriam os Beatles não fosse ele. Não só por seu bom humor, que permeou os filmes do grupo, como também por suas qualidades como músico. Há algo inexplicável no seu jeito de tocar que sempre intrigou a todos. É simples, exato, forte e ao mesmo tempo melódico. Ele vai com a banda e pela banda. É tudo o que um cantor, um homem de frente pode desejar na vida. Não à toa, Paul McCartney declarou recentemente, 55 anos após o fim da banda: “Mesmo tendo tocado com outros bateristas, ele é o melhor. Ringo tem uma certa pegada que é muito difícil para outros bateristas captarem”, disse. E encerrou definitivo: “Ele é o Ringo. E ninguém mais é.” Bem, algo bem óbvio, e um contrassenso enorme, é afirmar que a maior banda de rock do planeta tem um baterista ruim. Ainda mais uma banda que tem no próprio título um trocadilho com a palavra “beat”, ou seja, ritmo, em bom português. Tocar com técnica exagerada frases mirabolantes é coisa para outros gêneros musicais. É claro que vários outros bateristas do mundo são muito capazes do que ele para isto. O curioso é que nenhum destes craques do jazz é capaz de tocar as canções dos Beatles como Ringo o fez. E há várias gravações que rodam por aí para provar isto. Por isso, desde a última segunda-feira, quando Ringo completou inacreditáveis 85 anos, vale, e muito, festejar seu legado, tanto como músico, cantor, baterista e, é claro, a notável e simpática figura pública que sempre foi.