(Reprodução) Você sempre foi o maior sinônimo de alegria, pelo menos aqui, dentro de casa. E isto, desde os tempos de o Domingo no Parque. Era bem menino e minha mãe, encantada, repetia que “a canção deste preto lindo era maravilhosa”. “Aquele preto que você gosta”! Depois disso, veio o exílio e, na volta, um outro Gil, repaginado, magro, rebelde e ainda mais encantador. Me pegou em cheio, menino, músico, a juventude que se pronunciava repleta de suas canções e posturas. Suas roupas, sua voz, o violão para lá de bem tocado, a África e um Brasil novo, contemporâneo. A vida seguia assim, “bem perto de Gilberto”. Foi quando aconteceu aquela tragédia com o Pedro, baterista promissor, garoto forte, lindo. Nunca esqueci sua entrevista, aos prantos, destruído, insistindo que os velhos é que deveriam partir antes dos meninos. Imaginava que uma pessoa qualquer jamais conseguiria se reestabelecer de uma coisa daquelas. Mas você não era e nem nunca foi uma pessoa qualquer. E te vejo, tempos depois, buscando explicações em uma própria composição sua: “Se a morte faz parte da vida/E se vale a pena viver/Então morrer vale a pena”. Lá estava você de volta, com suas canções, sempre ligadas e antenadas aos novos tempos. Minhas filhas nasceram e cresceram admiradas por você e outros tantos poucos que conseguem renascer todos os dias. Elas chamavam - e chamam ainda - você de Gilzinho, um sinal de carinho desmedido pela sua música e postura. Assistimos juntos ao seu reality “Em casa com os Gil” e nos divertimos muito. Parecia que fazíamos parte da família. De certa forma, era isso mesmo. Você sempre foi e será uma espécie de parente fundamental, um tio nosso, irmão, pai e avô, oráculo e guia. Quando a Preta - logo ela, a alegria da vida, irreverência, luta e prazer - caiu doente, me senti bem aflito. Veio a lembrança do Pedro, da sua dor e reação e, imediatamente, a pergunta que pairava: “será que ele suporta um outro tranco desses?” Foi mais ou menos por aí que circulou pela imprensa o seu conselho à filha, que se ela estivesse sofrendo muito, poderia “se deixar ir”. A sua maneira de encarar a vida e suas mazelas, de certa forma, sempre me impressionou tanto ou mais do que sua voz e as composições geniais. E este conselho, cercado de toda a dor do mundo, também vinha repleto de coragem e, sobretudo, amor. A despeito de toda a dor que um pai possa vir a sentir - a pior dor do mundo - ela nunca pode ser maior do que o padecimento do filho. No último domingo, triste, a Preta deixou de sofrer. Se deixou ir, apesar de toda a fome de viver e permanecer que ela sempre transpirou por todos os poros. Imediatamente, toda a força do pensamento se voltou a você e aos seus. Aquela família divertida, talentosa e claramente capitaneada por você e todo a sua alegria. Qualquer palavra de consolo e todas aquelas coisas que normalmente se repete nessas horas se calam na garganta. O que tiver de ser daqui em diante, será. Mas, vindo de você, é sempre certo dentro de todas as incertezas, que tudo, tudo sempre pode ser.