(Divulgação) Cerca de cinco anos separam o EP Guia, considerado o marco zero, o lançamento da banda Big Up, para este Linhas de Cerol, que acaba de chegar às plataformas digitais. O pouco tempo, no entanto, foi o suficiente para trazer a maioridade musical para os três talentosos garotos da Zona Sul de São Paulo. É bom destacar que o que entregavam Lucas Pierro, Victor Burbach e Gabriel Geraissati, conforme destacado aqui neste espaço, já era coisa de gente grande. Conforme disse na época, “há uma energia quase incontrolável no som do Big Up. Um conflito de forças que sempre joga tudo pro alto e, ao mesmo tempo, mantém o jogo no chão. Impossível não se contagiar com o som e não admirar a acuidade com que é feito. Tudo é medido, caprichado, bem executado”. Algo que chama a atenção na banda é a energia das suas apresentações ao vivo. Mesmo em vídeos que eles postam nas redes sociais, se percebe a alta voltagem com que eles lidam com a vida e a música. A produção de Mario Caldato Jr., feita em Los Angeles, consegue, entre outros méritos, trazer isto para o álbum, algo raro, muito raro. Além disso, se o EP Guia foi feito de maneira quase artesanal, este Linhas de Cerol traz, além da parceria com a Universal Music, uma série de participações de primeira linha, como Criolo, Höröyà, Preta Ferreira e Souto MC. Preta Ferreira, que abre o álbum com Esù, conversa diretamente com Guia e suas referências aos orixás, e escancara o que está por vir. A canção SP, com a participação de Criolo, é uma espécie de chave que abre a porta para os mistérios da Big Up. A banda consegue, com ela, desmontar o mito da face árida e sisuda da música da Capital paulista. Trata-se de um groove de samba quase de roda, que mistura hip hop com um refrão melódico repetido pelo convidado com alegria, força e coragem. As brasilidades prosseguem na potente e irônica Paraíso (Inferno), que conta com o grupo Höröya, uma grande reunião de músicos brasileiros e africanos. A canção dispara em uma explosiva mistura rítmica: “Quem vive no paraíso se alimenta da pobreza do inferno”, um achado poético/melódico que nos remete a Bob Marley. A Sua Fartura Me Impede de Comer traz a participação da engajada rapper da Zona Sul de São Paulo Souto MC, de ascendência indígena. Suas rimas se destacam no final da gravação sem meias palavras, em um dos pontos altos do disco. Há muito mais para ouvir e contar sobre Linhas de Cerol, um passeio nu e cru pelas quebradas de São Paulo. Um grito musical moderno e ancestral, cheio de ousadia, esperança e talento. A Big Up, assim como a cidade que seus integrantes emulam e amam, é uma tribo única, que tem por mérito maior abrir seus braços e ouvidos para todas as outras nações musicais.