“Vocês já sabem, eu sou a única cantora lésbica da MPB”, ela dizia em tom de chiste no início da década de 1980. Óbvio que Angela Ro Ro não era, nem de longe, a única cantora brasileira homossexual, mas era a única que não tinha, até então, o menor pudor em se manifestar como tal. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É importante lembrar que, ao contrário de hoje, em que revelar a sexualidade confere um certo status aos artistas, na época a história era bem outra. E é sempre bom lembrar também que, se as coisas hoje são como são, devemos, e muito isso, a Angela Ro Ro. Nela, tudo se misturava. Música, vida pessoal, relacionamentos, álbuns, escândalos. Ela vivia nas páginas dos jornais, sobretudo pela sua relação conturbada com a cantora Zizi Possi, com boatos de gritarias, pancadarias e agressões desmentidas pela própria: “Eu nunca bati em ninguém nem naquela cantora em 1981. Nunca dei um tapa nela e nem ela em mim”, afirmou Ro Ro. O fato é que a boataria rendeu um presente inesquecível de Caetano Veloso, que deu o nome ao seu segundo álbum: a canção Escândalo. Um grande exemplar da produção do compositor que acabou por marcar para sempre a carreira de Angela Ro Ro: Eu marquei demais, tô sabendo Aprontei de mais, só vendo Mas agora faz um frio aqui Me responda, tô sofrendo O álbum era apenas o segundo de Angela, que já era bem conhecida pelo público, não só pelos escândalos. Seu primeiro trazia, entre outras, a inesquecível “Amor, meu grande amor”, uma das mais lindas baladas da época, escrita em parceria com a letrista Ana Terra. Ela era, até então, um fenômeno isolado da nossa música. Na época, explodia em todas as rádios o rock nacional. Na contramão de tudo e de todos, Ro Ro cantava algo que pode ser definido como boleros blues. Uma nova canção de fossa que remetia muito mais ao Beco das Garrafas da fase pré-Bossa Nova do que ao ursinho Blau Blau e congêneres. Tocava piano e cantava muito bem, com a rouquidão que lhe valeu o apelido. Cada vez que subia ao palco, divertia a plateia com, além da sua música refinada, uma ampla, total e irrestrita irreverência, com frases desconcertantes, entre elas a que abre este texto. Era cultuada, e com toda a justiça, pela turma LGBTQIA+, que na época se resumia às três letras GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), que também servia, e foi apropriada de maneira bem-humorada, para designar os carros de luxo. Angela Ro Ro cumpriu a sua trajetória basicamente sozinha. Apesar de ter sido gravada e regravada por grandes nomes da nossa canção, não fazia parte de turma alguma. Era só e única. Ninguém fazia nada parecido com ela. Ninguém jamais teve a sua coragem. Deixou álbuns memoráveis, frases hilárias, encrencas, carências, escândalos, mentirosos ou não. Foi um meteoro que incendiou uma geração e ajudou a permitir a chegada destes novos tempos.