Raimundo Pena é um especialista em transformar pranchas monoquilhas em biquilhas (Divulgação) Raimundo Bernardo Neto nasceu em Crato, uma cidade que é considerada a capital cultural da região no Ceará, no dia 30 de agosto de 1959. Filho de Manoel Tavares Neto e Raimunda Zizira de Souza Tavares, cresceu na cidade de Aurora, Ceará, uma região que faz divisa com os estados da Paraíba e Pernambuco. Seu avô materno, Raimundo Bernardo de Souza, era um famoso latifundiário na região. Morando no Sítio Cantinhos, Raimundo aprendeu a apreciar a água em um açude, até chegar a Fortaleza e se apaixonar pelo mar. Em 1970, após a morte da mãe, Raimundo, o Pena, mudou-se com o pai e seus irmãos, Rubens e Petronio, para a capital do estado. Depois de alguns empreendimentos mal sucedidos, seu pai virou taxista, e as frequentes visitas às oficinas de funilaria despertaram em Raimundo um apreço pelo artesanato, que mais tarde utilizaria na fabricação de pranchas de surfe. Aos 16 anos, trabalhou numa sorveteria à beira-mar em Fortaleza, na Praia dos Diários, onde conheceu surfistas experientes como Odalto Castro e Zorrinho. Foi nesse ambiente que Pena começou a surfar, inicialmente com uma prancha de isopor Planondas, até adquirir sua primeira prancha Gledson na loja Mesbla de Fortaleza. Ele passou a frequentar as praias da Leste Oeste até a Ponte Metálica, e, em 1978, após a mudança para uma casa no Centro de Fortaleza, Pena shapeou sua primeira prancha para o irmão Petronio, reutilizando blocos de pranchas descascadas devido à escassez de matéria-prima. Essa foi a primeira prancha que assinou com o nome Pena. A partir daí, tornou-se um especialista em transformar pranchas monoquilhas em biquilhas, com mais de 300 peças em seu currículo. Durante um naufrágio do navio Amazonas em Fortaleza, em 1981, parte da carga de madeira vinda do Pará foi parar na praia, fornecendo material para construir a primeira fábrica no quintal de sua casa na Rua Princesa Isabel, que hoje é a sede da Pena Surfwear. Naquele ano, Pena promoveu um campeonato na Praia Leste Oeste, com muita música e um clima de celebração, e o prêmio ao campeão foi uma prancha Pena Surfboards. Herdeiro dos equipamentos da Nortão Surfboards de Odalto Castro, Raimundo começou a vender camisetas com o logotipo da Pena Surfboards em sua oficina, no fundo da casa dos pais. O apelido Pena foi dado por Raimundo do Posto de Bicicletas no Bairro Carlito Pamplona. A marca Pena Surfwear nasceu das camisetas estampadas com o logotipo das pranchas, criando uma identidade forte entre os jovens surfistas. Os primeiros integrantes do Pena Surfboards Team foram Salu, que venceu o primeiro campeonato organizado pela marca, Fernando Catunda, César Picureia, Marco Aurélio, Cardoso Jr., João Carlos Coveiro, Petronio e outros. A partir daí, a Pena Surfwear começou a se expandir, inicialmente na antiga fábrica de pranchas e na confecção de bermudas de surfe, oferecidas por Zulene, mãe de Majela e tia de Argemiro. Em 1o de abril de 1986, Raimundo fundou oficialmente a Pena Surfwear, adquirindo máquinas de confecção e inaugurando uma nova fase na Princesa Isabel, a mesma rua da casa do pais e da oficina de pranchas. A marca sempre inovou em boardshorts e roupas confortáveis, tornando-se símbolo do estilo de vida surfista mais radical, com uma equipe que incluía nomes como Rodrigo Jorge, Tita Tavares, Dunga Neto, André Silva, Adriano Mineirinho, David Silva, Cauê Frazao e muitos outros. A Pena Surfwear se espalhou do Norte ao Sul do Brasil, adentrou pelos rios no interior do Brasil, alcançando os estados do Amazonas e Para até o Suriname, uma verdadeira epopeia no mundo do surfe, oferecendo aos povos originários o estilo surfwear da Pena. Hoje Raimundo Pena realizou um dos sonhos da família ao comprar o sítio Cantinhos na região de Aurora onde a família nasceu e cresceu, e o açude onde ele se apaixonou pela água está de novo a seus pés. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal