A bordo do Pulgueiro, seu Fusca Azul, Marcelo Fukuda construiu as memórias de sua juventude pela estrada até Ubatuba, palco dos primeiros Festivais Brasileiros de Surfe, onde acampava como um nômade de areia em areia. Em se tratando de campeonatos, Marcelo conquistou um quarto lugar no Estadual do Tombo, mas não era nas medalhas que encontrava sentido. Seu talento se revelava em outra arena: a arte. Pintava camisetas à mão, vendidas aos amigos, até que seu traço chegou as vitrines das primeiras surf shops de Santos. Assim, tornou-se um dos pioneiros do surfwear brasileiro. Da Mansurf, dos irmãos Elias, Wady, Fuad (Fuwax) e Tuca à Wagon do Celsinho e OP do Sidão, da HD do Jackson à Town & Country, sua arte se espalhou. Com José Roberto Rangel, tornou-se sócio da T&C Brasil, onde criou anúncios, desenvolveu produtos e, sobretudo, a vitoriosa equipe T&C, comandada pelo seu irmão Márcio Kabeha e formada pelos irmãos do Tombo, Neno, Paulinho e Amaro, entre outros campeões. Fukuda construiu pontes entre o Brasil e o Havaí, no processo de licenciamento da marca. Foram anos de negociações, encontros com shapers renomados e surfistas lendários, viagens que misturavam negócio, mar e amizade. Como designer, desenvolveu logotipos para a Associação Santos de Surf e fábricas de pranchas tradicionais como a Tropical Brasil, Shine, Star Model e Zampol, entre outros trabalhos. Paralelamente, formou-se arquiteto pela Faus, na UniSantos, em 1982. O traço que um dia desenhara camisetas passou a projetar lojas e espaços para marcas como Quiksilver, Billabong, Rip Curl, Vans e Sthill. Fukuda arquitetava sonhos de concreto, mas sempre com cheiro de maresia. O artista percorreu o mundo atrás de inspiração e ondas perfeitas. Em 2009, viveu uma odisseia inesquecível com os amigos Toni Barletta, Giba, Claudião, Juninho, Wagnão, Mark Juizwiak, Sergio Cangiano, John Wolthers, além de Rogério Biral, Bayard e o fotógrafo Denis, em Mentawai, a bordo do catamarã King Millenium, viagem que rendeu um encontro inusitado com o ídolo daquela geração, Gerry Lopez – dias que se tornaram capa da Alma Surf. Com a arte eternizou o movimento do mar. Pinturas a óleo e acrílico ganharam paredes de amigos, exposições na Pinacoteca Benedito Calixto e espaços descolados de São Paulo e Santos. Entre telas e ondas, Marcelo Fukuda construiu um universo próprio, onde a arquitetura do traço se mistura ao desenho líquido das marés. Hoje, quase aos 68 anos, Fukuda, que é pai de Adriana, Mariana e de João Francisco, ainda desliza nas ondas da Praia de Pernambuco e na Prainha, lado direito do Quebra-Mar, porque, para ele, viver sempre foi isso: encontrar beleza no instante em que o homem e o mar se encontram. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal.