Há 18 anos, ele dedica sua vida a transformar outras através do surfe (Reprodução/Instagram) Jocélio de Jesus nasceu em Ipiaú, na Bahia, em 20 de julho de 1967. De origem humilde, saiu de sua terra com a mãe, Maria Elena de Jesus, e o irmão do meio, José, em busca de novas oportunidades. Depois de uma longa jornada, chegaram à pacata, porém inspiradora, Vila de Olivença, uma joia escondida a 13 km de Ilhéus. Gente simples, acolhedora, rodeada de nascentes de águas minerais e muita natureza. Mas o que realmente chamou atenção de Jocélio ainda adolescente foi o mar e suas ondas. Enquanto tentava pescar pequenos peixes nas pedras para garantir o almoço, ele era fisgado pelos surfistas que passavam, atraído por aquele mundo de ondas e liberdade. Quando o mar não dava o peixe, ele se aventurava com os amigos, pegando ondas de jacaré, sonrisal e até em pedaços de isopor e troncos de jangada, improvisando suas primeiras pranchas. Foi na Praia de Batuba que, de tanto insistir, alguém generoso emprestou uma prancha monoquilha ao garoto magro e de sorriso fácil. Assim nasceu o “nativo”, como a galera do surfe passou a chamar Jocélio na época. E foi uma única onda, uma só, que mudou tudo na vida daquele menino. Naquele momento, ele descobriu que toda a felicidade e sentido para a vida podia estar ali, em cima de uma prancha. Sem abandonar os estudos, ele começou a cuidar de carros, vender cocadas e bolo de tapioca, tudo para manter o sonho vivo. As pranchas eram caras, escassas, difíceis de conseguir. Mas, com a ajuda de um grupo de amigos turistas que acampavam em Olivença, Jocélio ganhou sua primeira prancha de verdade, uma biquilha amarela da Rico Surfboards, e começou a treinar sério. Logo, seu talento chamou atenção nas competições locais, e ele foi crescendo, conquistando espaço, enfrentando desafios como o preconceito por ser pobre, negro, problemas com drogas e a falta de recursos. Mas nada disso foi suficiente para parar aquele espírito forte. Com humildade, autoconfiança, apoio de pessoas generosas e, claro, com muita fé, ele foi superando cada obstáculo. No início dos anos 1980 surgiram os primeiros apoiadores. Eram empresários locais, entre eles a Freitas Turismo, responsável pela logística nos campeonatos, a Surfari e a Cauan. Não demorou muito e Jocélio virou Jojó e, mais a frente, por sugestão de um amigo, complementou, com o “de Olivença”, consolidando seu nome de luta até os dias atuais. Jojó de Olivença atraiu novos patrocinadores como a Realce Nordeste, a Spirit, a Blue Hawaii, a Island Scene e a Billabong do Brasil, responsável por trazê-lo para o Sudeste e projetar o surfista nacionalmente. Após conquistar seu primeiro título nacional em 1988, Jojó deixou a pacata vila e partiu para o Guarujá, uma cidade que já respirava surfe e competição. A Billabong trouxe algo inédito para Jojó e para o surfe nacional. O surfista foi registrado na indústria metalúrgica Piazza, comandada pelos irmãos Ricardo e Ronaldo, o Tim, com a marca Billabong do Brasil, e passou a ter salário, carteira assinada e direitos trabalhistas, além de um apartamento para morar na praia da Enseada. No Guarujá, Jojó casou com Adriana, teve os filhos Kaipo e Kauan, e conquistou seu segundo título nacional em 1992. Em 1993, foi campeão paulista profissional, vice-campeão brasileiro e entrou na elite do surfe mundial, a WSL, competindo no Circuito Mundial por cinco anos, mostrando que talento e determinação podem transformar sonhos em realidade. Jojó foi além das conquistas individuais. Ele fez história por ser o primeiro surfista afrodescendente do Circuito Mundial. Hoje, Jojó ainda compete na divisão dos Masters, segue colecionando medalhas e conquistando títulos, como o tricampeonato brasileiro. Convertido ao Evangelho de Jesus Cristo desde 1987, Jojó testemunha o encontro com Deus como um divisor de rumo em sua vida. Suas vitórias atingiram outros patamares. Há 18 anos, ele dedica sua vida a transformar outras através do surfe, usando a força das ondas e as oportunidades do esporte para tirar crianças e adolescentes da vulnerabilidade social. Assim, fundou o Projeto Ondas em 2007, iniciativa que reúne coragem, fé e um pouco do sal do mar; uma combinação que pode mudar vidas. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal