Era só mais uma lição de matemática. O garoto de 11 anos olhou para o exercício, pensou por dois segundos e pediu ajuda ao ChatGPT. A resposta apareceu na tela em menos tempo do que ele levaria para lembrar a tabuada. Satisfeito, avisou a mãe: “Agora posso brincar”. E seguiu feliz da vida… Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Essa cena já virou rotina em muitas casas do Brasil e do exterior. Afinal, quem nunca usou uma calculadora ou anotou uma fórmula na última página do caderno? A diferença é que hoje, no lugar de uma máquina de somar, temos uma inteligência artificial (IA) com vocabulário refinado, senso de contexto e até opinião. E ela está cada vez mais presente na educação dos filhos. Não dá para negar: a IA facilitou muito o dia a dia das famílias. Com ela, os estudantes resolvem tarefas com mais rapidez, acessam explicações sob medida e conseguem ajuda mesmo quando os pais não estão por perto. É quase como ter um professor particular de plantão. A inteligência artificial consegue adaptar o conteúdo ao perfil de cada estudante, ajustando o vocabulário, o ritmo e até o tipo de exemplo usado. Para quem aprende melhor com desenhos, a IA cria analogias visuais. Para quem prefere listas, ela organiza em tópicos. Em teoria, é a educação personalizada que sempre sonhamos de forma acessível. Apesar das vantagens, usar a IA como atalho constante pode enfraquecer o desenvolvimento cerebral. Afinal, o cérebro precisa ser desafiado para formar conexões duradouras e quando a gente terceiriza tudo para as máquinas, perdemos oportunidades valiosas de exercitar a memória, a criatividade e o pensamento crítico. Esse enfraquecimento ganhou até nome: dívida cognitiva. É o que acontece quando usamos tanto os recursos externos que esquecemos de usar o que temos por dentro. Menos esforço mental, menos memória, menos aprendizado de verdade. Para entender melhor esse impacto, pesquisadores do MIT Media Lab realizaram um estudo com 54 voluntários. Eles foram divididos em três grupos: um usou inteligência artificial para escrever textos, outro recorreu a buscadores tradicionais como o Google e o último fez tudo sem nenhuma ferramenta. Os resultados chamaram atenção. Os participantes que utilizaram IA apresentaram a menor atividade cerebral entre os grupos. Essa constatação foi feita com o uso de eletroencefalografia, uma técnica que mede como as regiões do cérebro se comunicam entre si durante uma tarefa. E mais: quando esses mesmos participantes tentaram escrever sem ajuda, continuaram com baixa conectividade cerebral. Ou seja, o uso constante da IA deixou uma marca visível no funcionamento do cérebro. O estudo revelou ainda outro dado preocupante. Cerca de 83% dos que usaram inteligência artificial não conseguiam lembrar de trechos do próprio texto minutos depois de escrevê-lo. Já nos grupos que usaram o cérebro ou buscadores, a retenção foi muito maior. E tem mais. Muitos relataram que nem sentiam que o texto era deles. A IA entregou o conteúdo, mas não construiu o pensamento. No contexto das famílias, esses dados acendem um alerta. Será que estamos ajudando nossos filhos a aprender ou apenas ensinando como pedir ajuda mais rápido? O problema não está no uso da IA, mas na forma como ela é inserida no cotidiano. O conhecimento exige construção, exige tentativa e erro. Quando a resposta vem pronta, a criança perde a chance de se esforçar, de formular hipóteses, de errar e tentar de novo. A ideia aqui não é criar um clima de pânico ou demonizar a tecnologia. A IA é uma aliada poderosa quando usada com critério. O segredo está no equilíbrio. Uma boa estratégia é mesclar momentos com e sem ajuda da IA. Por exemplo, pedir que a criança resolva metade da lição sozinha e depois use a tecnologia para revisar ou comparar. Outra opção é transformar a IA em parceira de reflexão. Em vez de apenas copiar a resposta, os pais podem perguntar: “Você concorda com o que ela disse? Como você explicaria isso com suas palavras?” Isso obriga a criança a pensar sobre o que leu e exercitar a compreensão. E talvez o mais importante de tudo: valorizar o processo. Nem toda resposta certa é sinal de aprendizado. Às vezes, o que mais ensina é justamente errar, tentar de novo, fazer do próprio jeito. Quando elogiamos só o resultado, passamos a ideia de que o caminho não importa. Mas é nele que o cérebro realmente aprende. Em tempos em que a eficiência virou moeda valiosa, talvez o verdadeiro luxo seja ensinar os filhos a pensar devagar, com profundidade. Resolver tarefas é fácil. Construir pensamento dá trabalho e é justamente aí que mora o aprendizado. *Gabriela Morais é professora e especialista em IA e Tecnologia. gabriela@wmorais.com.br