Era uma vez uma criança que, ao invés de ter um ursinho de pelúcia como confidente, passou a conversar com uma assistente virtual. Perguntava sobre dinossauros, pedia piadas, cantava músicas e, de vez em quando, até reclamava do dever de casa. O nome da amiga? Alexa – ou qualquer outra inteligência artificial que coubesse no bolso ou na sala da casa. Essa realidade já está entre nós e cresce a cada dia. As relações parassociais, que são aquelas em que criamos vínculos com figuras que não conhecemos pessoalmente, como celebridades ou personagens fictícios, estão assumindo uma nova cara quando se trata das crianças e da inteligência artificial. Só que, agora, a diferença é que esses “amigos virtuais” não apenas falam, mas interagem muito bem. As primeiras pistas dessa tendência vieram com assistentes como a Alexa, que logo se tornaram parte da rotina doméstica. O que antes era só um facilitador de tarefas virou companhia para muitas crianças. Elas conversam com a IA como se fosse alguém de verdade, e muitas vezes sem perceber que por trás da voz gentil há apenas um programa que simula conversa, sem emoções ou compreensão real. Esse tipo de relação abre uma avenida de oportunidades e também de riscos. A inteligência artificial pode ser útil como suporte educacional, oferecer companhia em momentos solitários ou até mesmo estimular a criatividade. Mas também pode criar uma dependência emocional, confusão sobre o que é humano ou não e, principalmente, gerar vulnerabilidades quando o sistema falha ou dá respostas inadequadas. Responsabilidade É aí que entra a figura do adulto, com papel fundamental nesse novo cenário. Pais e responsáveis não devem apenas entregar o tablet ou ligar o dispositivo e sair de cena. O ideal é que estejam por perto, orientando o uso, explicando que a IA é uma ferramenta, não uma pessoa, e que não substitui os amigos reais. Supervisionar também é importante, porque mesmo as melhores tecnologias podem escorregar e oferecer respostas inadequadas ou conteúdos não apropriados. Além disso, regular o tempo de uso e os temas das conversas ajuda a manter a IA no papel certo: uma aliada complementar, e não protagonista da infância. Todo adulto deve assumir três papéis em relação ao suporte e monitoria no uso da IA: orientar, supervisionar e regular. Papéis do adulto Orientador: antes de entregar um dispositivo à criança ou permitir interação com chatbots, ele deve explicar o que é IA, o que ela pode ou não fazer, e como não substitui uma amizade humana. Supervisor: monitorar as interações, acompanhar quais temas a criança aborda, se há exposição a conteúdos impróprios ou respostas dúbias. Isso inclui revisar o histórico de uso ou alertas que os sistemas oferecem. Regulador: limitar tempo, definir regras (quem conversa, com que frequência, sob que temas) e intervir se o vínculo se tornar emocionalmente excessivo. O ideal é que o assistente não ocupe o lugar de pessoa real, mas cumpra papéis auxiliares (fatos, curiosidades, jogos educativos). Preocupação O tema é uma preocupação da sociedade como um todo. No Brasil, o Congresso debateu o tema e o Palácio do Planalto sancionou a Lei Federal 15.211/25, que ficou conhecida como ECA Digital. Seu objetivo é proteger crianças e adolescentes no ambiente on-line, exigindo que plataformas digitais ofereçam mecanismos claros de segurança, controle parental e verificação de idade. A ideia é que essas tecnologias, ao serem desenhadas, já levem em conta as vulnerabilidades do público infantil. No exterior, a Unicef vem publicando alertas sobre os riscos e as oportunidades que a inteligência artificial representa para crianças. Em uma de suas análises mais recentes, a organização destaca que muitas vezes os pequenos encaram chatbots e assistentes como verdadeiros amigos, o que pode afetar o desenvolvimento emocional. Afinal, a IA responde com paciência infinita, não julga e parece estar sempre disponível, um pacote tentador, mas que não ensina habilidades humanas essenciais como empatia, frustração ou negociação. A IA está entrando nos quartos, mochilas e mentes das crianças, mas não precisa ser vista como vilã. Com orientação adequada, ela pode ser uma aliada no aprendizado e no crescimento. O segredo está em dosar, entender e participar. Isso significa ensinar desde cedo que nem toda resposta digital é confiável, que existe um ser humano por trás de cada conteúdo e que amizades reais, com falhas, gargalhadas e abraços são insubstituíveis. Então, se a inteligência artificial já virou companhia de tantas crianças, quem vai garantir que ela seja uma boa influência? Gabriela Morais é professora e especialista em IA e tecnologia.