(Anderson Bianchi/ Divulgação/ Prefeitura de Santos) A cidade nascida todos os dias mais além daquela em que se nasce, múltiplas cidades invisíveis, contidas num cenário móvel entre nuvens confundidas com ondas, navios enlaçando ruas, guindastes raptando sonhos por outros desejos renovados. Mais que pouso, Santos, emoção da minha vida e pretexto de Netuno para alucinar de saudade seus muitos poetas. Uma nesga de terra, serpenteada de reentrâncias forasteiras, ilha andante; que milagre forjar tanta história, que prodígio sustentar tantos destinos no tão frágil contorno intimidado entre mares e serras. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Santos! Fímbria, um respingo geológico salvo para abrigar epopeias. Estamos no umbral de meio milênio e penso-te já civilização consolidada, cidade-estado, porto livre, rebento internacional na costa brasileira. Santos regaço, abrigo acima de tudo, ponte, plataforma, disposição ao sentimento atlântico do mundo. Admiro que já sejas discutida para os 500 anos: econômica, estrutural, concretamente. Penso-te na soma maior de todos os fatores: cultural, animicamente. A pujança do porto, a afluência crescente de todas gentes, as condições de transporte, tua vocação aduaneira; todos os fatores não alcançam o mais das coisas que te definem, expressam, fazem-te distinta, peculiar: tua aura, aquilo que justifica para mais 500 anos. Sem pensar na sua resiliência ambiental e valorização cultural, todo planejamento de ‘hardware’ não valerá para sustentar um ‘software’ oco ou esvaziado. Não perguntem a Roterdã ou Barcelona, cidades exemplares, sobre seus desafios logísticos se olvidarem o arcabouço civilizacional que os sustenta. Cidades como Santos, seculares, têm o dever de fortalecer sua vocação desde a semente: cosmopolitismo, liberdade de costumes, pacto com as alteridades e radical sintonia com sua paisagem. Balneabilidade, resgate hercúleo dos manguezais, arborização incessante, integração com o entorno santense, que dá personalidade a todo o Litoral e, sinceramente, apostar em cultura! Cultura santense como royalties, cultura santense como marca diferencial, nossa arte e nosso engenho feitos commodities e sobrevivência. Cultura é o bolo não a cereja! Do cais ao Porto, tudo ganha nexo pelo nosso recheio caiçara. Da maresia ao noroeste, ao chiado sibilante, sem esquecer o atávico pendor que propiciou o fenômeno da Vila Belmiro para todo o globo. Protejam nosso sol, salvem nossa sombra do caos climático, mantenham a ‘santisticidade’ – grife que seguiremos enriquecendo com nosso recheio. Nunca esquecerei o espanto do pensador Décio Pignatari ao ver a glória musical do nosso irmão em arte Gilberto Mendes destacar-se em todos os continentes, sem nunca deixar de morar em sua Ítaca, Santos! Gilberto tinha boas razões de voltar de concertos em Moscou e aulas no Texas: suas praias, essa atmosfera mágica, e o grande amor pela musa Eliane. Da verticalização sufocante à derrubada do Parque Balneário, cometemos erros crassos. Pensemos na vida da qualidade que escolheremos. Acabei ler uma lista de 50 lugares para visitar no planeta, do jornal The New York Times. Duas no Brasil: Inhotim, inventada para as artes, e Belo Horizonte, por seu circuito de botecos. Arte, boêmia, frescor: o que fazemos para promover nossa cara, nosso caráter paradisíaco? Um museu de arte e o resgate da noite, que já foi nossa vitrine!