(Divulgação) Toda vida sabe para que destino se conduz. Somos moldados por sinais que se tornam símbolos para nossos mais fundos significados e propósitos. Outro dia, vi uma bela entrevista do físico Marcelo Gleiser falando dos persistentes indícios que revelavam sua paixão pelos astros e constelações. Aos 13 anos, ganha de presente do pai uma foto autografada por Einstein. Os avós foram anfitriões do pai da Teoria da Relatividade quando no Rio em 1925. O maestro Roberto Sion, íntimo do piano desde os 5 anos e do saxofone e clarinete aos 14, aos 3 anos assistiu siderado uma apresentação de Stan Kenton, mega ‘band leader’ e lenda do jazz em sua casa no Canal 3, na Santos dos anos dourados do pós-guerra! Os pais judeus são antologicamente exímios condutores culturais. Ainda adolescente, o talento precoce receberia um bilhete motivador do São João Batista da bossa nova, Dick Farney, que anunciaria uma década antes o percurso de João Gilberto e companhia para levar nossa batida ao mundo. Desde 1978 não me sai da cabeça a magia do encontro de Tom, Vinicius, Miúcha e Toquinho, escorados pelos acordes de Sion, considerado pela rigorosa crítica japonesa um dos melhores alto-saxofonistas do planeta. Os japoneses, poetas delicados, são os maiores cultuadores dos melhores ritmos do século, do tango à bossa. Nenhum show expressa tão bem um Brasil possível quanto a turnê de 1978 com os magos que podem ser vistos miraculosamente em seu YouTube. Roberto perfez todo arco de sustentação ao seu virtuosismo natural: estudou arranjo e improviso em Boston, esmerou-se em composição com o conterrâneo Almeida Prado e com o mítico Koellreutter, fundou e regeu a Orquestra Tom Jobim, doutor em música pela Unicamp, mas foi Gilberto Mendes o mentor que mais o reflete. Generoso e altamente pedagógico, sem perder o apego lúdico pela criação, Sion foi plenamente definido pelo poeta maior Augusto de Campos: ‘sax total’. O artista que faz do gênero, do instrumento, da perícia algo maior que a arte: uma práxis de encantamento da vida pelo poder totalizante da música. Não foi Kant a dizer que a música é a linguagem dos afetos? Que rastro provocador de todos os nossos sentidos Sion acompanhando Alaíde Costa, interpretando o velho Villa-Lobos, tascando um choro rendilhado de brasilidade, Sion em duo com Nelson Ayres! Não há limite para tanta sensação sinestésica, para um músico sem nenhum compromisso com a ortodoxia. Afinal, sempre me soou o universo cúmplice do jazz num improviso descontínuo ou sincopado, e nada mimetiza a genesis de todas as coisas como um solitário solo de sax ao crepúsculo... Hoje, teremos a chance de ouvir Sion na Casa das Culturas de Santos (Rua Sete de Setembro, 49, Vila Nova), a partir das 16h30, no projeto Santos É um História. Agradeço ao querido casal Gilberto e Luiza Pierotti ter nos aproximado para essa ‘master class’ descontraída, afinal, Sion é tão Santos, tão sentimento atlântico da vida, feito maresia que nos impregna de doce nostalgia, com vontade de seguir horizontes infindos... * Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos flavioamoreira@uol.com.br