(Adobe Stock) “Ir a lugares, fazer coisas, ver pessoas”. Nunca esquecerei da sentença de Martin Scorsese para resumir prazeres da vida, especialmente no ápice das estações. O verão é o leão das atmosferas: voraz, voluptuoso, onipresente nos poros, frestas e vãos do cotidiano escaldante. Diante do mar, o verão absolutiza-se untuoso e refrescante, arquetípico e sensualíssimo ao tudo que nos sugere a luminosidade das vagas, à sedução das ondas, à presentificação do élan vital que nos tira do leito pedindo “vem ver o mundo em seu resplendor”, convidativo por sentir, conviver, plenificar o instante. É o sol que atenua nossas dores, relativiza nossas aflições; sol que clarifica os caminhos, amplia nosso horizonte de possibilidades, torna a existência uma imposição. Epicentro de todas as luzes do Atlântico Sul, Santos é o mais cantado balneário dos trópicos por poetas dos quatro cantos, de Neruda a Bandeira, passando pelos nossos Vicente de Carvalho, Martins Fontes e Ribeiro Couto. A Cidade parece um pretexto geográfico para o astro rei fazer abrigo. No clássico romance A Carne, Julio Ribeiro diz que nosso calor faz inveja ao Senegal! Canícula de langor e impaciência com o abafamento, somos como os bons ingleses adaptativos, no desfrute desse furor climático e existencial. Neste janeiro, tudo concorre para o torpor das brisas, brisas forasteiras e benfazejas, como franciscanas irmãs sob a copa das frondosas árvores ao estio esplendoroso que nos desafia a vencer qualquer desânimo. Para quem é da praia, a praia!, símbolo maior do convívio gregário, paroxismo da democracia epidérmica de todos os sentidos. Para os da noite, o sublime desfilar de tipos, contornos, semblantes, em nossos calçadões apinhados, entre petiscos leves e a densidade resfolegante do puro malte, ela, soberana cerveja ou delicado chope, entre arroubos de alegria, gargalhadas soltas que só o verão permite. A convivência esfuziante das noites santenses, que soubemos imortalizar no mormaço de convergência de todos os temperamentos, sob a sinfonia de navios mastodônticos na imponência de nossa baía encantada de crepúsculo róseo. Tudo exala desejo, tudo exacerba esperança no raiar do ano: todos têm uma estória a contar, quando houve uma vez um verão em Santos, e Santos tantos! Namoros surgidos entre os acepipes do Heinz, encontros fraternos no aconchego do Paulistânia, todo aquele cenário da Dolce Vita da Rua Pindorama e a saideira no bulevar de agito do Boqueirão, zênite da barra onde o vento faz a curva, e todas as tribos celebram nas mesas de rua do Lanches Praia. Destinos se cruzam do José Menino à Ponta da Praia, como nas cidades míticas: Tânger, Trieste, Zanzibar, Xangai! Assim comparou o romancista britânico Lawrence Durrel em carta a Henry Miller sobre a cidade-estado de Santos. Amo Santos, sedenta em todas as suas fases, mas no verão desabrocha sua melhor versão! Foi ainda Durrell, autor viajante que comparou Santos com Aden, no Mar Vermelho, e os portos arábicos em seu mágico esturpor. Terras de Rimbaud, gênio maldito que assim definiu a eternidade feliz num verso: “A eternidade? Sim, foi encontrada! É o mar que fulge com o sol no fim de tarde”. A felicidade que sonhamos, para mim, sempre se completa num verão de Santos, quando a amizade é um só espírito entre dois corpos ou copos...