(Alexsander Ferraz / AT) Santos, nesga, naco mítico emprestado do mar, belo mar selvagem cantado por seu maior poeta, Vicente de Carvalho. Só por seus sonetos, já valeria do mar ter-lhe a terra embalado o berço. Essa Santos baía glutona, consumindo estroina do mar as riquezas. Côncava e reentrante, bioma surgido das ondas que lhe cobram de novo o espaço. Estamos conjecturando muito infraestruturas, sem pensar no mar que tudo decide. Até onde vai a paciência do deus das profundezas e vagas sonolentas, com o desatino dos seus hóspedes bancando ser ocupantes permanentes? Uma das cenas mais carregadas de simbolismo de nossa era foi o Santo Padre de Roma abençoar um pedaço de gelo, de vinte mil anos, despregado na Groenlândia. Sinal dos tempos? Não! O horror ambiental somos em grande parte nós humanos, desde a Revolução Industrial. O mesmo Papa que nos alerta que a janela de reversão do caos climático está se fechando. Ao mesmo turno que devemos mudar estilo de vida dependente de combustíveis fósseis, não podemos perder de vista o esforço de resiliência a mitigar até o limite do possível para garantir a sobrevivência da espécie. Numa derradeira entrevista, Sebastião Salgado ao jornal The Guardian, me impressionou ao pontificar: “O planeta vai se recuperar. Está cada vez mais fácil para o planeta nos eliminar”. Duro e sincero, um artista e ecologista que não desistiu desse mesmo planeta. Salgado investiu heroicamente no reflorestamento do combalido Vale do Rio Doce. Semana passada, o Jornal Nacional divulgou ação de mesma persistência em Santos, que numa parceria com a Unicamp, aposta na tecnologia para conter o oceano bravio em nossas praias, toureando as vagas insinuantes. Conter a erosão resfolegante, moderar as ressacas potencializadas pelo esvaimento das calotas polares é uma epopeia digna de Sísifo, aquele personagem do mito grego, que é condenado a levar ao topo da montanha uma rocha que eternamente volta ao chão, para ser infinitamente reposta no cume. Enquanto tentamos reverter a degradação, apostamos na contenção. O grande desafio para a almejada transição energética não será só a decisão de governantes, mas a reticência dos cidadãos em cumprir metas, a partir da mudança de comportamento. Revisão de hábitos de consumo, mudança de paradigmas no transporte, desde o carro até o uso de jatos, do subsidio a práticas poluentes e da insistência no petróleo com sofismas econômicos. Será difícil reverter a sanha por um presente hedonista, para legarmos a Terra a descendentes, sem que tenham de pagar a conta por nosso niilismo predador. O negacionismo climático é outro nome do cômodo autoengano. Não demorará para observarmos o flagelo dos exilados ambientais. Onde abrigar os deserdados pelo furor das temperaturas extremas? Aquela pedra de gelo diante do sumo pontífice nos adverte sobre o colapso. Colapso de moradias, colapso de safras, colapso de polinização, colapso de fotossíntese; colapsus, do latim, “que cai como um só bloco”. Daqui dessa esquina portuária do mundo, torço a nosso horizonte que se perpetue honrando o visionário Saturnino de Brito. O exemplo de Santos, salvando a fímbria de sua ponta de praia mágica, é gota que vibra, ressoa, redime. Mar é útero. E temos tanto direito à sua brisa quanto os liquens. Ah! Se pudéssemos emergir com nossos olhos vivos no futuro, como num poema profético de Tennyson! Ver a nobre raça dos seres fraternos em comunhão, para muitas primaveras aos que virão nos apontando o dedo... *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos flavioamoreira@uol.com.br