(FreePik) Ter tempo para espiritualidade, literatura e poesia. Este motivo declarado pelo ministro Luís Roberto Barroso para abdicar de oito anos de poder e ribalta num país onde apego e aparência moldam tantos destinos. Quem larga qualquer carguinho ou holofote num país dado ao mandonismo e à superficialidade? O Brasil ainda tão verde e amarelo para ir pra frente. Mas aqui a questão é de uma política mais ampla: a direção de nosso espírito no que, mais profundo, tem a dimensão de espírito. Dispensa dizer que não trato de religião — foi nos agnósticos que encontrei maior traço de alma. Buscar transcendência no mais fundo do íntimo, buscar propósitos sólidos, ter noção de nossa precariedade, ver muito além da ponta do nariz. Quantas vezes deparamos com a expressão “não parei para pensar”? Na era das exterioridades, quanta ação viceja em nosso meditar, quantos acontecimentos brilham em nossas reflexões. Perceba que Barroso distingue literatura de poesia — não soa pleonasmo mesmo. Poema é o que se escreve; poesia, o que se sente. Quanta poesia ao observar o halo do café numa manhã silente! Quanta poesia ao rever O Sétimo Selo, de Bergman! Quanta poesia nos autorretratos de Rembrandt! Quanta poesia nas telas solares de David Hockney! Não conhece ainda Hockney, caro leitor? Delicia-te pesquisando nas possibilidades poéticas do teu celular. Juntando poesia à literatura, acabei de reler Tia Júlia e o Escrevinhador, de Vargas Llosa, e as crônicas de João do Rio. Somos capazes de topar com mais poesia em nosso quarteirão do que em cansativos deslocamentos às badaladas Ilhas Maldivas. É o teu olhar de ver, não a coisa olhada. Duvido que alguém tenha visto tanto, tão profundo, de tantas coisas, como um homem praticamente cego: o escritor maior Jorge Luis Borges. Quanto tempo tens “parado” para pensar, ainda que não concordes que pensar seja parar? Não falo de ócio criativo — esse conceito nada moderno que vem dos estóicos. Afinal, ninguém pensou melhor que o imperador Marco Aurélio, que dominou meio mundo e trocaria toda a glória pelo indispensável autodomínio. “Não aja como se tivesse dez mil anos para jogar fora.” O imperador não descuidou um segundo das tarefas da governança, ainda que soubesse que, sem cuidados com o autoconhecimento, nada vale a pena. O segredo está em não se perder no contingente em detrimento do essencial e atemporal. Chega um momento em que não precisamos ir a todas as festas, frequentar todos os eventos sociais — o momento em que buscamos seguir o propósito intransferível conosco mesmos, na integralidade. Ver e ser visto por quem nos vê inteiros, e que vemos para nos acrescentar. Não é preciso um diagnóstico meticuloso para inferir na ansiedade e na vaidade os grandes distúrbios contemporâneos. Tudo que importa é o que mais em nós amadurece, em nós repousa precioso, o que não verga ao menor vento. Se poeta foi sabedor do que conta, só ele, Rilke, disso nos ensina: “Em nós a pressa mora / Jovem, procura e ousa, não a velocidade, o voo tentador... não, pois tudo repousa no Eterno: claridade e sombra, livro e flor.” A literatura, mesmo quanto empenho de toda uma vida, exige. Escrever é estiva — pede, exige, faz suar por dentro —, mas é o que de melhor nos fica. Guarda-te um tempo, leitor: és feito dele.