(Reprodução) Era abril de 1959. Vivia-se um outono efervescente na redação de A Tribuna, ainda no prédio da Rua General Câmara. O repórter Hamleto Rossato sai esbaforido rumo ao Gonzaga com o fotógrafo Rafael Herrera no encalço. Recebera uma ligação urgente de que o maior cantor do planeta estaria tranquilamente refestelado diante duma meca santista no Don Fabrizio. O jazz, ritmo astral, tem sua própria realeza com nomes como Duke Ellington e Count Basie, mas 'king', um só: Nat King Cole! Ele descera a serra trazido pelo jovem empresário Abelardo Figueiredo, habitué do restaurante que ombreava com os melhores de São Paulo. O cantor de voz aveludada, imortalizado por Fascination e Stardust, queria conhecer o mar da boa terra. Seria recebido por Juscelino Kubitschek no Palácio do Catete, num tempo em que políticos tinham gosto cultural e elegância de modos. Hamleto, num bom inglês, conseguiu um furo nacional. Nat ainda incólume no Brasil e só se apresentaria no Paramount, em São Paulo, no dia seguinte. Logo, os arredores da Praça Independência ferveram de fãs diante do sorriso cristalino da divindade doce que morreria no dia em que nasci, 15 de fevereiro de 1965, aos 49 anos. No sábado passado, na Casa das Culturas, ao ouvir Roberto Sion com o brilhante Coral Vozes, coirmão do Coral Calixto, ambos sob a regência da maestrina Simone Schumacher, pensei e me questionei: que água tem Santos para suscitar tanta história? Foi aqui que o marechal do samba J. Muniz hospedou em casa Cartola e Zica, amantíssimos do Carnaval santense! Também aqui, a diva Leny Andrade deu canja na casa de José Geraldo Barbosa e Dilza. Quantas vezes, na lendária Rua Bolívar, não ouvi madrugada adentro o som de Sion alternar com a voz de Tião Motorista na casa vizinha de Chico Barros, às do Direito, da poesia e da pintura. Por essa época, nos anos 70, chegara a reunir ali o universo jurídico, com o pai da matéria Pontes de Miranda, recém-ingresso na Academia Brasileira de Letras. Não é que no artigo anterior chamei Geraldo Pierotti de Gilberto? Talvez por ser ao lado de Gilberto Mendes meu dileto mestre, o melhor causeur de estórias do samba e choro, assim como Mendes era do erudito. Pierotti, exímio compositor, nos deve livro de memórias sobre a Casa Amarela, o Chopebol e, claro, seu premiado choro. Aprendendo com Walter, dedicado a Walter do Bandolim, parceiro de Dino Sete Cordas, ambos frequentadores dos saraus de Rubens Miranda de Carvalho. Não existirá inteligência artificial que crie o calor do relato, a memória oral, o élan vital de vidas vividas e atentas ao fascínio do convívio! Johnny Alf, que passou temporada em Santos. Laurindo de Almeida, celebridade do violão na Califórnia, amigo de Clint Eastwood e Reagan, nascido em Miracatu. E o que dizer do esquecido cantor calunga Mauricy Moura, primeiro interprete do desconhecido Tom Jobim com a canção Incerteza? Mauricy barbarizou na boemia desde a Vogue no Rio até os inferninhos na Major Sertório, exalando talento comparável à sôfrega dor de Lupicínio! O Bar da Praia merece um capítulo à parte da Santos mítica, bem como os amores clandestinos de Johnny Mathis na boca do cais – Mathis está fazendo 90 anos, por sinal. Aí terei pesquisar o antológico Boca Bendita, de Sergio Fernandes Lopes, suprema referência do céu estrelado de nossa prazerosa noite. *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos flavioamoreira@uol.com.br