(FreePik) E, numa tarde chuvosa, os labirintos tortuosos te convidam aos mal iluminados meandros dum alfarrábio. Sebos com tantos caminhos trilhados por sobre páginas esmaecidas, períodos grifados facilitando tua jornada, delicados marcadores e, por sorte, um trevo-de-quatro-folhas a conduzir o bom destino dum leitor nos abençoando às mesmas trilhas por outros olhos. Com a anuência benevolente duma senhora grisalha ou um excêntrico livreiro equidistante por um ritual tácito, já que bons leitores não precisam ser conduzidos em sua errância. Os livros parecem nos escolher no dedilhado entre estantes curvadas pelo bom uso de obras-primas não reeditadas. Livros que compramos por sua beleza imorredoura. A Importância de Viver, de Lin Yu Tang, é o supremo dos jovens dos anos 20 ou 30 do século passado. Como não adquirir Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Barthes? Melhor presente a quem busca entender o mistério dos enamorados. Falando em sebos, que lugar precioso para conhecer pessoas interessantes, porque interessadas no que conta. Novos amigos se fazem assim entre um folhear do Tao da Física, de Fritjof Capra, ou O Véu Pintado, de Somerset Maugham. Nunca me esqueço do Livro Vermelho, da Barata (nenhuma sugestão às pragas) Ribeiro, ou do livro que marcaria minha vida na Rua Augusta: Os Frutos da Terra, de André Gide. Você regateia pelo estado do exemplar, embala em papel celofane e ganha as ruas como que carregando papiros eivados de prodígios ou uma presa numa densa floresta de saberes. Escolhe uma mesa recôndita de esquina, pede um drinque e, com cuidado, se debruça sobre o achado, como num bom susto. O tesouro a ser compartilhado depois com parceiros de leitura. Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, para um aprendiz de escritor, O ABC da Literatura, de Pound, para uma poeta atilada ou De Profundis, de Wilde, para conhecer o poder da beleza. Num volume, alguns esboços sobre os chacras e os dez sefirots da Cabala; noutro, uma meiga oração de São Longuinho. O Dicionário de Lugares Imaginários, de Alberto Manguel, é o Santo Graal de qualquer colecionador. Sabedor disso, sempre na cabeceira, essa preciosidade nunca empresto. Os reis de sebos foram os mais lidos nos últimos cem anos, certo? Eis Herman Hesse, contos de Maupassant, poemas de Guerra Junqueiro, fáceis às novas gerações. E que mistério o apelo que tem A Ilha do Tesouro, de Stevenson, ou Clarissa, de Érico Veríssimo. Dispõe as pérolas ao lado da tua preferida poltrona e tens os contos de Jack London longa jornada noite adentro...