(Renata Jubran/Estadão Conteúdo/22/07/1995) De onde escrevo contemplo um grande descampado que vai do Aquário às primeiras luzes do cais, no fim do Canal 6. Antes da grande reforma administrativa, com designações uniformes dos bairros, pululavam arrabaldes de nomes poéticos. Plínio Marcos nasceu em 29 de setembro de 1935, exatamente na Vila Sapo, encravada nos areiões da Ponta da Praia até o Macucão de campos de várzea e vilas operárias. Sobranceiro, o Leão do Jabaquara abria-se em portal, tendo o campo do Espanha convergência de toda a mocidade entre as chácaras de japoneses e os domínios da praticagem. Plínio foi responsável pela universalização no teatro brasileiro dos tipos que compunham seu universo santistíssimo: os trabalhadores portuários, os malandros do cais, os cáftens abjetos exploradores das meretrizes da boca, os infratores de um país desigual, homossexuais invisibilizados ou caricatos na cena artística, os oprimidos dos sobrados e mocambos. Para celebrar os 90 anos do maior dramaturgo nacional, ao lado de Nelson Rodrigues, releio a estupenda biografia escrita por Oswaldo Mendes do nosso conterrâneo errante, marinheiro doce num mundo bruto. Plínio que foi o palhaço Frajola, Plínio que popularizou o jargão ‘pôr o Jabaquara em campo’ para peitar a hipocrisia reinante, Plínio descoberto por Patrícia Galvão, Plínio apadrinhado por Cacilda Becker. Mas, especialmente, o Plínio das boates Moroco, Night and Day e admirador devoto do Nego Orlando, no Sambadanças. Nego Orlando, exímio dançarino, segurança de gafieira, egresso do mítico presídio da Ilha Anchieta e personagem digno das milongas de Le Pera nos cabarés da Santos luminosa. Plínio que não punha panca de intelectual, sendo um pensador nato, poeta absoluto das quebradas do mundaréu. Plínio que ecoava Tennessee Williams hétero e tupiniquim, antecipando Pasolini e Genet. Plínio intérprete das pocilgas, dos antros, dos bárbaros feminicídios e dos pixotes que dariam numa sociedade de facções e milícias. Havia o Plínio celebrizado por Tônia Carrero e o Plínio fascinado pelo Jabuca de Gylmar, Baltazar e Feijó, no tempo do técnico Papa. O Plínio sem carro, de chinelo no Gigetto, o Plínio sedutor, o Plínio pavor da mediocridade burguesa, Plínio decifrador do tarô e voz dos excluídos da mesa na sala de jantar. Um Truffaut dos incompreendidos de Pindorama, Plínio que deu holofotes aos habitantes das sarjetas que não perdiam de vista o brilho das estrelas. E que títulos! Os Tristes Amantes que não Souberam Amar, conto lindo que começa com a sentença de quem sabe das coisas: “Bendito seja o homem que cuida bem de sua amada na primeira noite”. Plínio que restituiu a gíria dos vagabundos à ribalta e elevou aos píncaros o vernáculo dos párias. Um mago da ralé. “Foi no verão, por acaso, que o velho pedinte descobriu o buraco debaixo do viaduto. Estava dando uma bandola, uma noite, assim conosco, como quem não quer nada, e, de repente, o rapá pirou na parada”. Plínio atual, sem culpa se o Brasil só piorou sua casa-grande e senzala. Nos seus 90 anos, a Casa das Culturas vai agitar muito seu resgate. Nesta segunda-feira, o glorioso Festa-67 de Pagu vai celebrar todos os perdidos nas noites de abajur lilás. Salve, Plínio! Santos, lembrai do seu anti-herói!