(Vanessa Rodrigues/AT/Arquivo) “Mercado do peixe, mercado da aurora/Cantigas, apelos, pregões e risadas/À proa dos barcos que chegam de fora. Cordames e redes dormindo no fundo/À popa estendidas, as velas molhadas/Foi noite de chuva nos mares do mundo”. O poema de Rui Ribeiro Couto consta nas mais importantes antologias do Brasil. O mestre da poesia e prosa nasceu na confluência histórica entre catraias e canoeiros trazendo bananas, e pescadores desembarcando cardumes fartos de mares bravios. Ali, no cais do Paquetá, também nascia o Mercado primitivo de Santos em 1902. A região de palacetes sempre foi vocacionada para o convívio da província com o mundo. Bandeiras estrangeiras, mercadores, marujos curiosos de nossas gentes, a Vila Nova de outrora ressurge em 2026 com a mesma atmosfera, agora acrescida de tecnologia: o VLT na porta, a rampa de catraias revitalizada e o pujante Mercado remodelado para a emergente economia criativa. Quantas estórias fui recolhendo das leituras de Afonso Schmidt sobre a encruzilhada de povos, de todo lirismo de Ribeiro Couto na linda biografia de Milton Teixeira e, claro, todo romantismo dos contos e versos da imensa escritora Regina Alonso, em torno das cadeiras na calçada, nos dia de vento noroeste, entre o casario com brados ibéricos, que se calhar ainda ecoam na lembrança de suas muretas tão santenses. Num solar entre palmeiras imperiais nasceu na Conselheiro com General Câmara a poeta Zezinha Aranha de Rezende. Na Rua São Francisco com Dr. Cochrane meiga vivenda guarda o berço do Dr. Luiz Rodrigues Corvo, tão íntimo do ambiente narrado por Jorge Amado e Ranulfo Prata. Corvo lutador, personagem saído dos Subterrâneos da Liberdade e Navios Iluminados. O novo Mercado, a nova bacia, agora com ateliês de tatuagem, convivência da melhor gastronomia, recanto de cultura das raízes e da raça das maresias, vai virar imenso point de todas as tribos, provando que a melhor arquitetura urbana é a forjada pelos afetos e trocas, a argamassa do reencontro da Cidade com seu destino de esquina de todos as ondas. Os dias agradecem a revivência do burburinho. Às noites, a redescoberta da saudável boêmia. Lembrai do mercado de Valência, leitores! Lembrai do Cais do Sodré, de Lisboa! Todo cais, todo porto, qualquer ancoradouro é para brilhar ao longe e vibrar por dentro! Um acesso da Rua Sete de Setembro à Perimetral, e pronto! A ilha estará completa! Límpida ilha como a linha d’água estendida. Convido-os a visitar o site oficial da Academia Brasileira de Letras e ler de novo Ribeiro Couto em seu poema O Portão. Nos fala dum casarão de sonhos, desejos, amores desfeitos na mesma Sete de Setembro com Constituição. Sim! Nosso conterrâneo em 1917 deu-nos obra imortal sobre o solar onde hoje fazemos arte incessante, na Casa das Culturas! Como num novelo desemaranhado, as sagas de Santos se bifurcam e misturam na Vila Novíssima! E o eixo, o imponente Mercado, refulgido das marolas da rampa do estuário. Conta-nos o prefeito Rogério Santos que todo esse prodígio urbanístico alumiado levará um nome que tudo diz e simboliza: Complexo Plínio Marcos. Plínio, de Querô, Plínio, desse Macuco ampliado, Plínio, das quebradas infinitas das estivas, dos proletários, dos perdidos, agora reencontrados num espaço de música, suor da dança, dos brios da nossa têmpera de desbravadores de horizontes amplos. Salve, salve sempre, Mercado, canto que é a cara da Santos, em preciosa metáfora dos tempos.