<p data-end="571" data-start="102">Se tudo o que se escreve é literatura, perde-se a distinção entre qualquer relato e Literatura. Admiro a grandeza de Drauzio Varella ao não se intitular escritor; considera-se um médico que conta, um narrador de experiências humanas sem refundar uma linguagem. Imagine se cada relato de viagem oceânica em um iate ou tour gastronômico na Toscana for catalogado como literatura, ao lado da poesia que é desespero e do romance que ressignifica a vida, na mesma estante.</p> <p data-end="1004" data-start="573">Literatura é risco, é reinvenção radical do uso da linguagem, é levar ao grau máximo da significação, através de elementos ordinários do vernáculo; é recriar universos a partir da palavra corriqueira, é curtição da linguagem. Vejam a literatura em seu potencial máximo de maestria em Guimarães Rosa: mistura do sertanejo cristalino com doses pinçadas do erudito! Nenhum elitismo há na distinção entre literatura e entretenimento.</p> <p data-end="1478" data-start="1006">Leio Proust e Somerset Maugham com prazer, mas sabendo tratar-se de prazeres diferentes, em camadas distintas de fruição. Quanta distinção na invencionice de perspectiva de Manoel de Barros e na doce despretensão de Cora Coralina, ambos eivados da mesma atmosfera telúrica do Brasil profundo. Não preciso recorrer ao rígido critério de Barthes para distinguir o escritor que molda a linguagem em si daquele que dá vazão a emoções ou reflexões sem intenção de fazer arte.</p> <p data-end="1930" data-start="1480">E fazer Literatura pode ser com o linguajar de malandro de Plínio Marcos ou na pele aparente de dona de casa em Clarice Lispector. Só com o conto <em data-end="1632" data-start="1626">Amor</em>, Clarice se inscreve na galeria das maiores escritoras do mundo! Escritor é o que faz pergunta sobre pergunta, aquele que, do magma efervescente da linguagem, abre fissuras vulcânicas de magma regenerador. Escritora vai além de se fazer rapidamente entender: cria um Parque Industrial como Pagu.</p> <p data-end="2600" data-start="1932">Escritores hoje: o poeta Marcelo Ariel e o híbrido poeta-contista Ademir Demarchi. Esta semana, o mundo literário foi sacolejado com uma cortante e necessária entrevista da maior mestra de literatura — seja italiana, russa ou brasileira —, a professora Aurora Bernardini, pontificando: “Itamar Vieira, Annie Ernaux e Elena Ferrante são interessantes, mas não literatura”. Além do bombástico, ela expõe a pobreza de critérios, a primazia do conteúdo facilitador sobre a forma rompedora, ao que acrescento: a confusão entre literatura e mercado editorial, estorinhas “fofas” embaladas como autoficção, costuradas de platitudes para fisgar leitores de domingo na praia.</p> <p data-end="3078" data-start="2602">A lei do menor esforço faz de Machado “difícil”: tudo precisa ser mastigadinho, até chegar ao colapso cognitivo desse “TikTok estético” que nos ameaça. Se Ruy Castro é escritor, o que dizer de João do Rio? E olha que a biografia de Nelson Rodrigues é um clássico do gênero — biografia! Numa sociedade intelectualmente superficial, a confusão de atributos na construção literária chegou ao limite da pasteurização: a literatura dos mais vendidos e dos palpiteiros de bienais.</p> <p data-end="3532" data-start="3080">É preciso uma voz de autoridade inquestionável — como ensaísta, tradutora, pensadora do denso ofício de criação — a desconstruir a pasmaceira midiático-mercadológica, ao apontar o óbvio em um ambiente cego pela mediocridade. Se não distinguirmos literatura de best-seller, incorreremos no fascismo do mainstream. O espectro cultural ainda é verde e amarelo ao menor ruído de sinceridade, que repõe o poder crítico diante da tirania do entretenimento.</p> <p data-end="3550" data-start="3534">Salve, Aurora!</p>