(Freepik) Poesia é o que se sente, atributo natural ou criado pelo encanto revelado. O poema, sua aplicação mais reconhecida, é apenas uma das suas apropriações entre tantas possibilidades. Quanta poesia se extrai em Matisse, em Fellini, na dança de Pina Bausch? O milagre não mora no invisível, é no inefável do visível corriqueiro, esnobado por nossas retinas acomodadas, que se revela o luminoso. Exulto saber que a Pinacoteca Benedicto Calixto vai receber importante mostra de Guto Lacaz, artista que desde os anos 70 vem moldando objetos, coisas, imagens epifanicamente, ao desafio da imaginação. Não banalizo termos: artista e imaginação não são e não serão pouca coisa num tempo desumanizado. Lacaz é artífice visceral e o imaginoso militante: desloca significados óbvios de uma cadeira, de um produto de limpeza ou eletrodoméstico, ressignifica uma paisagem, revoluciona a semiótica do cotidiano, intensifica a subversão de Duchamp ao high-tech pós moderno. Interessante que seja a terra onde nasceu Bartolomeu de Gusmão e Santos Dumont a ganhar essa grande exposição. Guto, admirador dos mestres aéreos, é o senhor das traquitanas, o demiurgo engenhoso dos ‘objogos’: inventa e cria funcionalidades úteis tão somente para a reflexão e a novos paradigmas de percepção. Lúdico e libertário: tem liberdade maior que a densa brincadeira? Não foi Aristóteles o definidor do termo ‘poiesis’, fazer, fazer experimentando, fazer como parto naquilo que já nos é dado feito? Uma bicicleta em Guto pode virar avião, a corda bamba da vida, ilusão de ótica, e até horizontes são provocados como objetos não identificados no lago do Ibirapuera! Não tem como não lembrar do devaneio inquietante, da poética do espaço de Bachelard diante das obras de Guto: a imaginação, nossa irmã infinita, nos pegando pela mão para uma viagem sinestésica, psicodelia inata. O ourives em sua grandeza não procura, acha, mesmo esbarrando na busca. Todo artista é multimídia; doutra forma, um limitado. Guto é o interdisciplinar radical, plural nos meios, multisensorial nos conteúdos, do engenho ao traço, do esboço ‘davinciano’ à sátira, um mix de Palatnik, Gilberto Mendes – e com a ousadia dos poetas concretos. Cada aparato de Guto prova que arte é curtição da linguagem. Curtição polissêmica: curtir do destilar sutil, curtir de tesão da alma, curtir de alcançar o maior resultado com o mínimo de signos, levados ao cúmulo de significados. Gosto que me enrosco com cada engenhoca ou parafernália no melhor sentido que se dá ao deslimite de conexões que o mestre desdobra. Os inventos aí são desejos, não necessidades de consumo; são irrepetíveis, não marcas descartáveis. Prova-se em Lacaz que arte é maior prova de resistência: ao mundo dado, aos materiais consolidados, ao condicionamento das miradas. Pop e cult, Guto é o que não está no gibi. Cria interpretantes, não contempladores. Encontro do paulistaníssimo Haroldo de Campos com Guimarães Rosa: diante do mar santense, sem margens. Não é o Paulinho da Viola que canta: ‘Não sou eu quem me navega/Quem me navega é o mar’? Na nossa Pinacoteca, veja Lacaz oceanicamente, com todos sentidos desregrados. Poetas são críticos de arte inerentes, vendo Lacaz ouvindo Satie.