(Matheus Tagé/AT) Um retrato congelado na memória que nos abre quanta história num instantâneo do tempo. O amigo sempre prefeito de Cubatão Nei Serra e empreendedor apaixonado de Bertioga me presenteou com um raríssimo fotograma do poeta Vicente de Carvalho ao lado dos 16 filhos, de dona Biloca Mesquita, irmã do imenso Julio, do Estadão e da República, ladeados pelo então presidente do Estado, o imponente Washington Luís. Este, o futuro presidente brasileiro, vinha de inaugurar oito monumentos no Caminho do Mar, a Praça Independência, em Santos, a Bolsa de Café, e repousa no bucólico solar do venerando imortal da Academia Brasileira de Letras, o Poeta do Mar. O Indaiá guarda encantos, dados sua portentosa localização e seu pontão maciço onde Vicente construiu sua herdade. É a perspectiva exata a avistar, longínquos, o cabo do Itaipu e o rendilhado em pérola de Guarujá, sugerindo, concavadas, Santos e São Vicente, abrigadas pela barra onde o Brasil começou. Não à toa, entre o Forte São João e Guaiaó, foi selada a sorte de nossa costa, berço da civilização, e a partir de onde São Paulo e o Rio de Janeiro se fizeram cidades. Nesse crisol de piratas e corsários, jesuítas, tamoios e tupinambás, onde Mem de Sá, Nóbrega e Anchieta fizeram morada para afrontar e vencer huguenotes e antropófagos, também poetas esquadrinharam versos eternizando os encantos entre Guaibê e São Lourenço. São Lourenço, agora Riviera, marco de sustentabilidade anunciando um mundo novo de boa convivência. Diadema dessa coroa bertioguense, o Forte São Tiago, depois São João, destaca-se sobranceiro testemunho, anunciando meio milênio de brasilidade. Nação surgida nesse cadinho forjado da bravura dos irmãos Braga e Adorno, de João Ramalho e Bartira, mas louvor maior ao Santo Anchieta, Canário de Coimbra, refém em Iperoig, a fundar em Pindorama o conceito de diplomacia na paz entre brasílicos e reinóis. Aprendi quase tudo do Indaiá com o jovem na foto caiçara de 1922 ao lado do pai, Vicente: Augusto de Carvalho, que me legou a beleza do lirismo e do relato. Crescido, fascinava-me o Cine Indaiá, com pé-direito alto e estrofes doutro mestre, Martins Fontes, inscritas nas paredes da sala de exibição. Que mistérios tem o Indaiá, tão intuídos pelo poeta dos cravos! Talvez a aguardada biografia do criador do dístico “Como é bom ser bom!”, escrita pelo querido Raul Christiano, nos revele todos! Confesso que comecei há algum tempo uma Breve História da Bertioga inspirado nestes versos do Dr. Zezinho: “Foi nesta enseada predileta/Cheia de ingá,/Que um pescador, um grande poeta/Fez o Indaiá./Semeando estrelas pela areia,/(...) A lua cheia/Prateava o mar/(...)Tudo encantava a nossa vista,/Com o claro tom/Tudo tão simples, tão santista,/Isto é, tão bom!”. O Indaiá é prova viva de que a metropolização é fenômeno natural: mirante da costa santense donde a aurora tudo espreita.