(Unsplash) Uma mesa no Boulevard Saint-Michel, num bar esfumaçado ao som de jazz, a pura atmosfera existencialista do começo dos anos 50, eis um jovem do José Menino entretido com outros artistas a ouvir Sartre e Picasso. Era Mário Gruber estagiando num ateliê de gravura perto do Louvre, que visitava diariamente para treinar o traço ao pé de Rembrandt. Fascinado pelo lusco-fusco do cais santense, já amigo de Portinari, volta a sua Santos para fundar o Clube de Arte, com Carlos Scliar e Gilberto Mendes, além de núcleo de talentos de todas as artes, seria uma célula da burguesia progressista simpatizante do Partidão. Gruber muralista, Gruber detentor de paleta carregada de simbolismo mágico, Gruber artista público lídimo discípulo de Diego Rivera. Foi ao mundo mesmo sabendo que seu berço caiçara já fascinara Tarsila, Anita Malfatti, Volpi e, lá distante, Benedicto Calixto que eternizou este Porto, esta costa, esta nossa gente. Que carinho Clovis Graciano imprimiu no seu painel do Mercado do Marapé! Que generosidade Armando Sendin, agora centenário, exerceu ao doar imenso acervo à terra de Paulo Prado, Gilda Figueiredo, Guiomar Fagundes, Wega Nery e Lucio Menezes! Vivi momento emocionante ao deparar com uma mostra de esboços e desenhos de Gruber na inauguração dedicada a santistas na Pinacoteca Benedicto Calixto. Gigantes santistas! Que pedem um espaço superlativo para hospedar gênios brasileiros, que por coincidência ou não, nasceram em Santos! A Pinacoteca é exemplo de rara continuidade num país incerto, e que sorte tem tido com seus dirigentes! Com Roberto Clemente Santini, cumpre-se um ciclo virtuoso de grandes mostras e atividades interdisciplinares: abrir as festividades do centenário de Gruber fez voltar os olhos à última e imensa mostra do mestre, em 2009, na gestão do amigo Geraldo Pierotti. Testemunhei o derradeiro encontro de Gruber e seu camarada de ideais, Gilberto Mendes, lembrando meninos do canal a nado, da poesia noturna dos areais de Itararé e, claro, dessa Barcelona Brasileira, recebendo Jorge Amado e Neruda! Depreendo disso tudo que herdamos, que assim como Niterói se reinventou com seu Museu de Arte, esta terra, chegando a meio milênio, clama pelo projeto de Paulo Mendes da Rocha concretizado. Museu com oficinas de arte para as periferias, sala multimídia e cinemateca, efervescência metropolitana para uma região tropical, sim! Mas com lastro para reunir sua Arte e História! Mirem Figueres na Catalunha, com seu Teatro-Museu Dali, ou o Instituto Gilberto Chateaubriand, na pequenina Porto Ferreira. Um museu vivo é marca de qualquer microcivilização. Estamos sentados sobre enorme potencial de captação num porto referencial para o Hemisfério. Falta à sociedade civil mexer-se para sustentar essa necessidade à altura de Hans Staden, de Manabu Mabe, Tomie Otake, artistas que nos narraram e pintaram para dizer com orgulho: um museu anexo à amada Pinacoteca, diante do mar, belo mar selvagem de nossas praias solitárias! Lutemos!