(Raimundo Rosa) Existe uma atávica cumplicidade entre a arte e rua. Assim, as oficinas renascentistas onde mestres laboravam ao ar livre, sob proteção de colunas, em pátios à vista de aprendizes que seriam Da Vinci ou Michelangelo um dia. Artesãos que criavam e expunham o fruto de seu mister ao passantes curiosos por sua cor, forma, prisma. Barcelona, cidade laboratório de todas as tendências descoladas, é prova viva de aproveitamento direto do que faz, intui e celebra como cultura em sintonia com seu porto, sua história, sua alma. Flanar pela calles e ramblas góticas de El Born e El Raval é testemunhar projeto consolidado de metrópole vanguarda sem prejuízo de sua tradição. Você vira em uma esquina e vê um jogral cantante, em outra um violoncelo até espreitar num adro interno modelos vivos pintados in loco. Outra noite, conversando com a premiada atriz de cinema, teatro e TV Imara Reis, morando em Santos para nossa sorte, pensamos juntos: por que não aproveitamos nosso lindo Centro histórico como o bairro parisiense do Marais, com feiras de antiguidades, sebos nas calçadas e pequenos cafés-concerto? Um movimento germinou essa atmosfera no coração do Marapé, ali na bucólica vila da Alfredo Ximenes incrustada entre o VLT e Canal 1, uma porta aberta entre quadros e livros, onde basta chegar e sentir seu pulso vibrátil de poesia. Uma garagem dá nome ao coletivo no piso da residência do querido pintor Costa Villar, leitor de Goethe e Pessoa, inspirado em Turner e Paul Klee, que nos abre um vinho em roda para discutir estilos, obras ou quanto a vida inspira se fruída com ganas de encantar. Movimento Garage, anglicizado para fazer jus a seu ar de loft do Village sob as bênçãos do Morro Santa Terezinha. Sem hierarquia, sem excesso de egos, Garage! Seus membros já participaram de exposições no Municipal, inspiraram livros de arte, inclusive Vilar ilustrou-me antologia premiada de versos. Nesse outono, expuseram no Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente com enorme sucesso. Fico imaginando o que seria a Cellula Mater sem a Casa do Barão e a luta do querido Paulo Roberto Costa carregando o piano da cultura calunga nos ombros calejados... Destaco a fotografia de Nelson Paim e as aquarelas de Vera, sua esposa, outros paulistanos a emprestar talento ao litoral, o cromatismo pop art de Diego Garcia e, claro, o expressionismo transmoderno do Costa Villar. Paim, pioneiro da publicidade que serviu retratando o governo FHC e primo do inesquecível Carlito Maia, gênio do marketing paulistano. O artista em grupo molda outras perspectivas de mundo, multiplica as miradas para composição acrescida de novos ângulos e exercita conexões com outras artes. Arte nasce de arte: conversa da pintura com a poesia, da poesia com a dança, da dança com o cinema num circulo virtuoso que germina novas estéticas e comportamentos. Basquiat era fruto do olhar das ruas. Quanto de Fellini era o afã das piazzas? Quanto nosso Guignard não hauriu dos becos de Ouro Preto ou Mário Gruber do cais santense? Que muitos Garagens surjam dos morros ao Macuco, com artistas de cavalete em punho escoltados por músicos nos mágicos fins de tarde. Mais arte pública no Parque Valongo, prestigiemos escultores da terra, exibamos a brava gente de Santos em cor e ao vivo!