(Alexsander Ferraz/AT) Terra de passagem, de grandes perspectivas, amplidão e esteio. Que deslumbrante tela de Calixto retratando o povoado entre colinas, descampados, manguezais espreitando o mar ao longe, sob a proteção da muralha. De açorianos a nordestinos, passagem e contorno, ganhou ares de Blade Runner, metaleira fumegando indústrias nem sempre conviventes com a cidade. Tenho outra Cubatão nas retinas: a que guarda bucolismo, habitada de poesia, a resiliente, hoje reconhecida mundialmente, ecológica e redimida. Uma belíssima exposição com curadoria do cineasta Douglas Gadelha, na Pinacoteca de Santos, me fez voltar os olhos à Cubatão cultural, a partir da saga do seu maior vulto: Afonso Schmidt. Que bela parceria do município, de A Tribuna e da Fundação Calixto, sob a presidência de Roberto Santini, revelando-se gestor cultural imprescindível. Voltei-me aos tempos em que dois dos maiores compositores latino-americanos lecionavam na terra de Schmidt: Gilberto Mendes e Almeida Prado. Mendes, que lhe dedicou duas obras: O Último Tango em Vila Parisi e Vila Socó. Recordei-me das insuperáveis gestões do amigo Nei Serra com Raul Christiano, secretário de Cultura. Ao mesmo tempo, tínhamos Silvio Caldas levando sua voz aos bairros, Bibi Ferreira em master class a jovens atores e Plínio Marcos ofertando sua genialidade aos estudantes. Como não lembrar de um dos maiores poetas da nova geração, Marcelo Ariel, tradutor, dramaturgo e força motriz da literatura de resistência brasileira? E novos autores, desde o premiado Manuel Herzog ao contista Márcio Gregório? Reflito o quanto pode a cidade que superou tanta catarse com arte! Saber que Cubatão vai ganhar um teatro ainda em 2025! Saber do Teatro do Caos, do heroico Lourimar! Saber que o Coletivo 302, cubatense, ganhou o Prêmio Shell, o Oscar dos palcos nacionais, também com Vila Parisi! Tudo começado com Schmidt, nosso primeiro escritor de ficção científica com Zanzalá, de Colônia Cecília, maior experimentação utópica nos trópicos. Schmidt, mito do jornalismo que nunca deixou de colaborar com este jornal, desde o editor Menotti Del Picchia até Geraldo Ferraz. E não é que o historiador Welington Borges vai reeditando Schmidt? Que lindo trabalho de arqueologia literária no paraíso dos sambaquis! Tudo soa-me como uma sonata de renascimento embalada pela batuta do seu maestro Roberto Farias! Acabei de reler O Enigma de João Ramalho, fascinado. Sem exagero, a pena de Schmidt nada deve ao preciosismo de Saramago em Memorial do Convento. Que esmero na reconstrução de nosso cenário, dos protagonistas desta Capitania de São Vicente, prestes aos 500 anos! No romance histórico, Schmidt ombreia com Paulo Setúbal e a jovem Ana Maria Gonçalves em Um Defeito de Cor, reconhecida com atraso pela Academia. Engaguaçu: chegaram ao mar, que estava calmo e transparente. Tão transparente que se podia ver no fundo das águas rasas os veios escuros pontilhados de conchas e caramujinhos sobre a praia molhada, lisa e espelhante, e a ressaca parecia tecer colchas de alva espuma. Leiam Schmidt! Nas livrarias, pelas edições da Prefeitura, pela Estante Virtual! Que escritor! E nosso! Tribuneiro e cubatense!