(Rogério Soares/ AT/ Arquivo) A crônica seria de louvor à trajetória, não pranto pela memória. Sábado passado antecipei o quanto o Bar da Praia demandaria do poeta deslindar seu simbolismo para a noite santense. Mas não era só santense, a partida de seu protagonista diz o tanto que significou para a boêmia brasileira, a permanência da bossa nova em nós e o respiro de liberdade numa região calada pelo arbítrio nos anos de chumbo. Eduardo Caldeira foi tão santense que cresceu nos resquícios do Parque Indígena, onde Julio Conceição recebeu Rui Barbosa em várias temporadas, no Boqueirão, onde Edu faria sua vida venturosa num quadrilátero até o Gonzaga, morando no santistíssimo Verde Mar, de Artacho Jurado. Foi um tipo hollywoodiano saído de filmes noir como Gilda, testemunha de amores nascidos nos seus bares, de rompimentos e as instigantes tramas noturnas que só um gentleman nos trópicos poderia oferecer com distinta discrição. Nossas conversas eram-me refrigério no déficit de inteligência nas madrugadas opressas. Ele surge num período nebuloso das cassações de Marcelo Gato e Nelson Fabiano, da obliteração dos movimentos sindicais, da mordaça aos artistas, ainda que fulgure na tímida abertura política, no retorno de Covas e Esmeraldo e tenha desfecho glorioso como anfitrião da terra na luta pela autonomia de Santos! Foi no burburinho do Reciclagem e do Praia que recebemos de volta nossa autoestima sequestrada pela ditadura, onde podíamos vislumbrar conversas entre Plínio Marcos, Paulo Autran ciceroneado por seu cunhado, o dramaturgo Oscar Von Pufhl, o poeta Jair de Freitas despontando, até uma ‘conversa de botequim’ com a premiada Fernanda Torres e Cristiane Torloni depois da encenação de Orlando, de Virginia Woolf! O Bar da Praia foi nosso Gigetto, nosso Riviera da Consolação com Paulista, nosso Pirandello na Augusta. Caldeira, embalado por Johnny Alf, provou que a noite e Santos têm uma cumplicidade que não pode passar despercebida por nossos governantes! Sair de uma casa de cultura para um bar da praia seria a melhor política turística para viajantes e patrícios vizinhos do mar e cais. Com Caldeira, testemunhei um dos episódios mais pândegos da literatura brasileira: o poeta gênio Haroldo de Campos ir às vias de fato diante de insistentes desafios etílicos do cineclubista Maurice Lègeard. Jamais esquecerei da exibição do hit de Alf dedicado ao Bar no programa de Fernando Faro, na TV Cultura, enquanto eu, depois de entrevistado pelo amigo Abujamra no Provocações, presenciei todo preito, do jazz à ‘santiscidade’ e sua atmosfera de brisa noroeste. Torço muito pelo projeto Happy Centro, do prefeito Rogério Santos, de fomento ao espetáculo, ao chorinho doce, ao burburinho em cada esquina do Centro à orla. Com todo respeito ao pão de cará, mas patrimônio insuperável é o chope, o petisco, o convívio desabrido que só o povo caiçara sabe estimular. De alguma fresta celeste, Edu, reencontrado o amigo Zé Teodoro Carvalhaes, nos espreita, dizendo: vai Santos! Segue teu destino, glamour e poesia... *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos