(Reprodução/TV Globo) Educação é tudo, principalmente se consideramos muito mais que colecionar diplomas. Quando os sensos de comunidade e educação se juntam, chegamos ao paraíso chamado sociedade civil, que não espera só do estado a construção da cidade ou da nação. Nenhum traço de neoliberalismo nisso, refiro-me à ajuda mútua e à fraternidade coletiva, muito além de associação de grupo de interesses. A vida de Robert Francis Prevost em Chicago é exemplar na formação de um cidadão para a vida, em comunhão com o mundo. Não parei para avaliar se Leão 14 vai se posicionar conservador ou progressista, só tive tempo de admirar o belo trabalho de seus pais. Sua mãe, neta de espanhóis e haitianos, foi a típica representante do caldeirão étnico de Chicago, terra nascida das cinzas dum devastador incêndio no século 19 e reconstruída por poloneses, iídiches, alemães, italianos e negros, com profunda consciência social. Mildred Martínez criou três filhos, se formou em Biblioteconomia, fez mestrado em Educação e era das mais atuantes paroquianas de Saint Mary. Reparem: tudo isso nos anos 40, quando o feminismo era um ideal distante. Casada com Louis, diretor escolar, ambos católicos sinceros, lavavam a sacristia e o altar, mobilizavam a periferia da metrópole industrial, culminando numa batalha típica de gente vencedora: criaram uma biblioteca imensa anexa ao templo. Chicago, sem se preocupar com o glamour de Nova Iorque, empenhou-se na edificação duma identidade cosmopolita a partir de suas particularidades culturais mais arraigadas. O seu Art Institute of Museum detém um dos mais ecléticos acervos do planeta. Mildred coletava de casa em casa livros descartados, tendo orgulho dos grandes Nobel da terra: Ernest Hemingway e Saul Below. Não bastasse ser uma intelectual, descendente de negros de passagem por Nova Orleans, casada com o franco-italiano Prevost, era chef de cozinha de fazer fila na vizinhança amiga! Se Leão 14 não reconhecer a importância de inserir as mulheres no seu pontificado, estará sendo injusto com o legado da brava afroandaluza que o inspirou. Bob, crescido no efervescente ambiente beatnik dos anos 60, teve uma biografia que nem Salinger, de O Apanhador nos Campos de Centeio, poderia imaginar: um padre americano de mochila embrenhando-se nas selvas do Peru e nos ‘pueblos’ andinos, sentado no trono de Pedro com o desafio da fé no transe apocalíptico do clima, somado às inovações pós-humanas que se insinuam. A Igreja tem como o ciclo de sístole e diástole do coração uma dialética pendular muito sábia: depois do obscuro conservador Pio 9, surgiu Leão 13, abrindo-se para a modernidade, assim como, sucedendo o carismático João 23, a figura discreta de Paulo 6 impôs-se aos conflitos de perspectiva da Santa Sé. Um papa crescido num mix de Nunca Te Vi, Sempre Te Amei e A Festa de Babette, que sonha conhecer Salvador da Bahia, não poderá dar num reacionário. Saber e sabor tem a mesma raiz etimológica. A vida é tempero.