(Imagem ilustrativa/Pexels) Um juiz com trajetória impecável, formado nas Arcadas e aprovado em concurso sem máculas. Um nome e biografia fictícios no meio do caminho, a personalidade não! Ele fez jus ao personagem no sotaque, nos rituais e no comportamento fleumático de lorde. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Não entro no mérito penal de falsidade ideológica nem patologizo seu transtorno dissociativo de identidade. Cabem-me a construção artística, o heterônimo urdido. A história da condição humana é o roteiro de sua imaginação, atributo da espécie e mistério cósmico. Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield já denuncia o blefe pelo clichê hiperbólico de sua fantasia. Lancelot, um dos cavaleiros da Távola Redonda. Canterbury, dos contos clássicos de Chaucer, correspondendo a Camões aos britânicos, nada mais previsível. Só faltou Cavendish, corsário que barbarizou a Vila de Santos, ancestral do rei Charles III, já que a doce e etílica rainha-mãe era Cavendish, sua tetra-tetraneta. Não será a própria realeza adorável ficção lastreada por histórico simbolismo? Não faltam gênios para narrar o frágil liame entre real e o imaginoso, o verdadeiro e o fantástico. Nosso Machado, em O Alienista, relativiza sanidade e loucura nos perguntando: quem é o delirante no manicômio que é o mundo dos homens? Já no magistral O Espelho, um jovem só se entende por gente com sua farda de alferes e só se ‘realiza’ pela aparência, sentindo-se pouco pela essência. Daí que surge a célebre teoria machadiana: “Cada criatura carrega duas almas, uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro”. José Eduardo Franco (!) dos Reis, nascido no ‘menor’ município brasileiro, sentia-se, até sabia-se, súdito do Império onde o sol não se põe, mas Jânio não se comportava como londrino? Brasileiros não mimetizamos hábitos e vícios ianques, depois de bancarmos por séculos franceses mal-ajambrados? Não tem magistrado de alta corte que penou para ter o registro da OAB? E nosso histórico de indicação político-jurisdicional não se configura burla ao requisito de notável saber jurídico? Em tempos de influenciadores e o império da exibição oca nas redes sociais, não é um luxo criar ao menos uma só ‘persona’ engalanada pela tradição passando-se por sir? Afinal, não é preciso recorrer a Nietzsche para reconhecer no Eu uma plataforma frágil para outros ‘eus’ de que somos compostos. Na era do estilhaço cognitivo e comportamental, não será prova de algum ‘juízo’ ter escolhido um só delírio? Dando azo à anglofilia, cito Shakespeare: “Duvida da mentira na verdade”. Afinal, a mentira é só a verdade que esqueceu de existir.