(Freepik) Poesia, quantos vilipendiam seu nome! Poesia é a união de som e sentido, poesia é risco, ourivesaria, uma luta ingente de signos levados ao cúmulo de significados. Nada mais distante do artificial que sua inteligência no esmero com a união das coisas nas palavras. Poesia não vende porque é ultima fronteira do que não está à venda. Eu que sou da terra com mar sei que poesia é estiva! Suor, cansaço físico por uma filigrana de epifania, de felicidade por alcançar seu ritmo conectado a uma imagem milimetricamente eloquente. Mário Quintana dizia que para organizar uma antologia o poeta precisa compor 200 poemas para aproveitar 20. Num país de poetastros, versejadores melosos, beletristas caramelados, contam-se nos dedos poetas à altura do ofício dos raros. Regis Bonvicino partiu sábado último. Um tombo em Roma, nada mais simbólico para alguém cansado do processo de idiotização galopante, principalmente nas artes e no que se chama cultura. Meu mestre e amigo de décadas, editor da mais importante revista especializada em alta literatura do Brasil, a Sibila. Traduzido na China, íntimo das rodas teóricas da França e parceiro dos norte-americanos em publicações internacionais. Melhor amigo de Leminski, parte no momento em que o paranaense genial será incensado comercialmente na Flip. Toda hipocrisia que a lira corrosiva de Regis execrava: o brilho oco sem o esmero da labuta, palavra por palavra visceralmente elaborada para a frase cortante. Poeta irrequieto e iconoclasta, construiu carreira no Judiciário, chegando a desembargador. Até nisso era demolidor de clichês, provando que não é o cargo que molda, e sim o mais além do simulacro, na atitude transcendente ao ganha-pão. Sim! Porque poetas, estranhos ao mercado, também pagam boletos. Seu ultimo compromisso literário foi em abril, na Casa das Culturas de Santos. Sabia de nosso compromisso com o esforço estético num mundo bruto. Devo-lhe um conto sobre Jim Morrison no cais santense, um Rimbaud desterrado nesses sôfregos trópicos. Era consenso nos círculos acadêmicos que Regis, ao lado do olímpico Augusto de Campos, eram nossos poetas referenciais além-fronteiras. Tocavam-no a guetificação da literatura por demandas de gênero, o esvaziamento da produção crítica, a tirania da industria de massa, dos imbecis opiniáticos tão bem catalogados por Umberto Eco. Bonvicino era um ponto fora da curva nesse cenário de patotas que se auto-ajudam nas bolhas midiáticas e no babaquismo conformista travestido de politicamente correto. Voltara-se para o que importa: a arte extraída das ruas, da miséria neoliberal, associado a um fino senso de perenidade ao rever o cinema neorrealista italiano, ouvir Scarlatti e revisitar Goya e Tintoretto. Num poema recente, percebe em Pasolini, nosso ídolo comum, o mártir do belo na sociedade de consumo. Eu sou uma força do passado / Somente na tradição está o meu amor / E eu, feto adulto, vagueio mais moderno que todos demais / a procurar irmãos, que não existem mais. Daqui, eu, a professora Aurora Bernardini, o Luiz Marciom da Revista Piparote e o Ademir Demarchi da Babel mandamos saudações, Regis! Foi em Roma, a pedra no caminho, mas a obra eterna.