(FreePik) Ler bem pede lápis sublinhando pontos fortes, frases mais significativas, grifar os destaques do percurso lido. As canetas marca-texto soam agressivas, o lápis fulcra mais discreto, a deixar marcas no caminho do entendimento profundo que trilhamos, fascinados com um romance, ensaio filosófico, um poema curto. Livros são viagens para tão dentro, tão longe, sulcando tão fundo nossas veredas... desde menino recolho as preciosidades em cadernos de iluminação. Sabe aquele diálogo feito para nos refletir em tal e tal momento? A estrofe forte dum verso? A mensagem que nos vem à mente, estrela cadente de beleza a refletir dúvida ou angústia? O que tu queres como bem maior e tão vital como um deus: não ser perturbado. Os gregos chamam de eutymia, o estado estável da alma. Eu chamo de tranquilidade. Uma citação que vale um tratado filosófico escrito por Sêneca, pensador romano que serviu e sofreu sob os imperadores Calígula e Nero. Ele devia saber o valor desse bem supremo. Tem prêmio maior que a tranquilidade? Esse estado de plenitude onde tuas aflições e ambições não te perturbam, meu leitor de sábado? Vou à estante e recolho meu William Blake, poeta, pintor, um mago inglês em poemas-sentenças nascidos provérbios: “Criar uma pequena flor é um trabalho de séculos”. Tudo está no instante e ele contêm a eternidade, meus camaradas! “Amaldiçoar, amarra. Abençoar relaxa”. Faça assim: aos tolos, um olhar compassivo. Leio Blake com o êxtase de Pink Floyd. A vida é movimento, não confundir mudança com inquietação. Mexa-se principalmente por dentro. Academias de ginástica te fortalecem músculos, não te ilustram. “Aquele que recebe com gratidão terá uma colheita farta”. A esperteza é o túmulo do convívio, não? Mas dois foram os supremos frasistas, entre diálogos ou por deliberada genialidade: o ídolo Oscar Wilde e Mark Twain. A juventude seria feliz de novo se lesse as aventuras de Twain. “Primeiro, informe-se dos fatos; depois, pode distorcê-los quanto quiser”. Quanto o Brasil estaria a salvo! “É melhor merecer honrarias e não recebê-las do que recebê-las sem merecer”. Que precisão para o interminável jogo de aparências que virou o circo humano! E tal todo visionário Twain acerta na mosca na epidemia de puxação de tapete: “Recolha um cão de rua, dê-lhe de comer e ele não morderá: eis a diferença entre o cão e o ser humano”. Cortante como o sol no inverno. Wilde sabia onde ia dar a máquina de prazeres sem propósitos da modernidade, sem beleza e oca de espírito: “Neste mundo, há apenas duas tragédias: uma, a de não satisfazer nossos desejos, e a outra, a de satisfazê-los”. Talvez o que reúna todos os saberes, sabores dos sensíveis, seja mesmo a sutileza na medida justa, a poesia que poderia ser de todos, e alguns poucos hoje cultivam. “Posso resistir a tudo, menos às tentações”. Wilde, que conheceu o triunfo, o escárnio, vítima da hipocrisia dos filisteus, resistiu em nome da arte. Tinha no ‘carpe diem’ de Horácio um lema. Curte o dia! Curtir de experimentar com gosto, provar teu Chianti com um queijo feta grego, ou cerveja escura nestes trópicos, esperando a primavera por trás da névoa.