(FreePik) Pensar, refletir, conversar, verbos cada vez menos declinados. Numa conversa de domingo ensolarado com o brilhante músico e cultivado Theo Cancello, vieram-me à mente adjetivos que permearam minha vida de admiração intelectual e artística. Nesse cenário atual de tão pouca substância, quando toda gente é ‘ícone’, ressalto quanto o gênio é exceção. Na semana que perdemos o mestre Evanildo Bechara, bom lembrar alguns termos que entraram no combalido vernáculo. Kafkiano, advindo do universo profundo de Franz Kafka e nos diz de opressão difusa, mal-estar em meio à burocracia, as malhas do aparato judiciário ou a sensação de sermos objetos de um grande sistema controlador. Tem muito a ver com seu parente conceitual orwelliano, de onde surgiu a imagem do Grande Irmão: a onipresente fiscalização do indivíduo em nome do estado, das grandes corporações, das ‘big techs’. Tudo saído da obra atualíssima de George Orwell. Todo jovem precisa ler 1984 e A Revolução dos Bichos, elas dizem de nós! Mas sejamos mais leves buscando correspondentes líricos para nossas vidas: chapliniano, ludicamente poético, como a dancinha de pães e a sopa de botas do Carlitos, ou felliniano, com ares circenses, epifânicos ou docemente boêmios, como na Dolce Vita, num passeio noturno em Roma com Mastroianni! E o que dizer do bizarro colorido das tramas de Almodóvar? Dos papos-cabeça de Woody Allen? Do som tropical de sabiás e bem-te-vis da música jobiniana? Tem coisa mais linda que ouvir Passarim? Render-se ao bom suspense de Um Corpo que Cai ou Janela Indiscreta, clássicos de atmosfera hitchcockiana? E quando nos bate aquela saudade de um detalhe de fim de tarde na infância ou do tom de voz de despedida de um grande amor, ou o aroma da juventude resgatada num átimo de reminiscência, somos proustianos sem saber? Por sinal, nunca tema ler Proust, desafie sua insegurança diante da sutileza, delicadeza: é sempre um ganho! Adjetivo por adjetivo, espirituais quando platônicos, hamletianos quando neuroticamente indecisos, fico com a necessidade de ousar, perder o chão em nome da paixão, reciclar nossos moinhos de vento, sermos quixotescos para não abdicar de ideais e sonhos nessa era de estéril pragmatismo. Afinal, pessoanamente dizendo: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada/Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo...”. É preciso arriscar o amor impossível, insistir com a utopia, recuperar o tempo perdido, cavalgar nosso imaginário Rocinante em busca de nossos paraísos íntimos. Até porque “só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”, como disse o poeta do Chiado, que aqui nesta crônica tornou-se advérbio de modo. Larga o celular, camarada, olhe teu Tejo interior assim como o guardador de rebanhos. Pessoanamente, exercita teu desassossego.