(Unsplash) Devia estar pelos 12 anos, e um volume caudaloso chamou-me a atenção: Conversa na Catedral, um alentado painel das atribulações de jovens sob o jugo de uma ditadura latino-americana. Foi meu primeiro romance adulto e, ainda que não dominasse seu conteúdo em plenitude, detive-me na maestria da técnica composicional, da dialogação à psicologia dos personagens. Vargas Llosa tornou-se um íntimo, interlocutor imaginário através de suas obras, que devorei como se fossem passagens secretas para uma realidade maior e profunda. Que poder tem a ficção de nos ofertar alguma verdade permanente! O belo peruano era exemplo síntese do quão intelectuais do continente são capazes de deter todas as tradições europeias acrescidas de nossas riquezas indígenas e africanas. Lídimo herdeiro de Flaubert, não se preocupou com a necessidade de inovar, nunca se rendeu ao patrulhamento das vanguardas estéticas, foi gigante pela construção meticulosa, formatando, em períodos rigorosos, todo seu cabedal imaginoso. Em nome da dedicação total à literatura ficcional, foi monogâmico em gênero e estilo. Não se aprisionou na cátedra, não dividiu a pena com o jornalismo além das colaborações eventuais, escorregou na política eleitoral, arrependeu-se amargamente. Ensaísta refinado, deu-nos A Civilização do Espetáculo, libelo definitivo sobre o processo de idiotização cultural que reina no nosso deplorável horizonte de telas e costumes. Não há um dia que não recorde de figuras e situações de Tia Julia e o Escrevinhador ou Pantaleão e as Visitadoras. Duas catedrais literárias, as preferidas: O Sonho do Celta, sobre o controverso cônsul britânico em Santos Roger Casement. Sim, em Santos, que inspirou Coração das Trevas, de Conrad, denunciou a estupidez belga no Congo e o abuso predatório dos britânicos na selva amazônica contra povos originários e o meio ambiente. A Festa do Bode, sobre a bestial tirania de Trujillo na República Dominicana: que painel sobre a insânia de qualquer ditadura! Creio que devorei suas 500 páginas dum fim de tarde até a madrugada, fascinado pelo domínio da trama. Cobrar um mestre por declarações equivocadas seria questionar Dante na rivalidade entre guelfos e gibelinos na Florença medieval. Quem dedicou sua vida a construir tamanho mosaico humanístico quanto Llosa tem todos os álibis aos pecadilhos do liberalismo de ocasião. Toda cobrança ideológica soa reducionista. Para um escritor, sua vida é sua obra, tão somente. Seguirei fiel ao fidalgo que, entre o Café Tortoni e a Plaza Mayor de Madri, tirava do colete estórias que nos faziam extasiados diante do melhor ou do pior de nossa debilitada natureza humana.