(Adobe Stock) Romance é arquitetura, perícia em construir narrativas solidamente erigidas estrato por estrato. Nenhum desdouro ao amado conto, não obstante o romance exigir mais, a pedir coerência mais prolongada. O romance é catedral; o conto, bela capela toscana, e Giotto não é pouca coisa. Ambos nos pedem mão específica. No romance, nexo causal, polifonia de caracteres e o sequestro do leitor com intensidade distendida no encadeamento por camadas. Célebre frase do mestre Cortázar: “Num conto, o autor ganha o leitor por nocaute; no romance, ganha demorada luta, por pontos”. E quanto alento para cultivar e entreter quem frui da saga familiar impecavelmente urdida por Alcindo Gonçalves em A Xícara de Prata! O engenheiro e cientista político se esmera nos detalhes a contar as muitas vidas dos Escuderos, seus ancestrais, na medida certa entre saga e o retrato psicológico dos membros de uma trupe de artistas que vieram fazer a América sem nenhuma rede de proteção. As turbulências pós-napoleônicas de Espanha, Portugal, França e Brasil, até os alvores da Belle Époque, são pano de fundo à resiliência de atores, bailarinas e músicos num país ainda formando sua incipiente burguesia em meio ao preconceito e o lirismo romântico-mambembe em tempos brutos. Uma rapsódia geracional onde torcemos por pares enamorados, sofremos pelos jovens tísicos e nos indignamos com os reveses do patriarca. Dos ofícios, a Arte é o menos reconhecido e ludibriado. Típica do intelectual analítico, a pesquisa incansável não reduz a tessitura ‘romanesca’ rara diante da aridez pós-moderna em boas estórias. O contexto temporal não abusa de pedagogia. Transe coletivo e personas interam-se. O painel operístico é um convite ao cinematográfico. Arte sobre arte, metalinguagem que informa e prende. Suspeito de que sua artesania literária, que nos leva até o fim do Segundo Império, terá continuidade trazendo o destino dos Veiga até a Santos do Estado Novo. Importa lembrar que o talento está no bravo sangue. Alcindo é sobrinho da grande contista e cronista Nair Lacerda, que, entre tantos relatos, nos deu um dos mais fortes contos sobre a condição feminina de antanho: Um Feriado, antologizado ao lado de Mário de Andrade e Graciliano. Alinhavando peripécias e desfechos marcantes, um eixo central se coloca ‘leitmotiv’: as escolhas entre dever e paixão, os propósitos ou o desatino, a família ou a aventura. Li num átimo as 400 páginas, ainda que com lápis em punho, grifando o ‘relevo’ denso e escorreito. Retinindo a proustiana xícara de prata, surge um prosador de fôlego! *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos