(Adobe Stock) Tem gente que chega no restaurante com a certeza de quem sabe o que quer da vida, ou, ao menos, do cardápio. Eu admiro esse tipo. Eu entro decidida, sim. Com fome, um plano mental e até uma ideia fixa. Mas basta sentar para tudo desandar. Acontece uma coisa. Um fenômeno. Um ritual de sedução silenciosa: o prato da outra mesa. A primeira garfada de quem chegou antes de mim funciona como meu trailer de cinema. É a prévia do que eu poderia estar vivendo. Observo o garçom, uma espécie de mensageiro do destino, vindo lá do fundo com a travessa fumegante. O perfume chega antes do prato. O queijo escorre. A crosta estala. Meu plano cai por terra, e começo a reconsiderar tudo. Mas o pior nem é quando ainda estou decidindo. O verdadeiro drama começa depois que já pedi. É ali que entra o teste de fidelidade gastronômica. Vejo passar um filé alto, suculento, com batatinhas douradas e um molho que brilha de tão untuoso. E meu risotinho, coitado, vira figurante. Fico olhando com aquela invejinha o prato da mesa vizinha, resistindo à tentação silenciosa de torcer para a pessoa não gostar. Só para não doer tanto no arrependimento. Seria muita maldade. E você também faz isso, não vem me enganar. Todo mundo faz. Aquela olhada enviesada, fingindo que está admirando a luminária ou procurando o banheiro, quando na verdade está de olho naquela massa gratinada que acabou de pousar na mesa 3. A gente é voyeur de comida, confessa. Se não fosse, por que tanta gente ia ficar vidrada em vídeo de garfada lenta na internet? Close no queijo derretendo, na mastigada com trilha sonora suave, na colherada em câmera lenta. Comer virou espetáculo. E a gente virou plateia e elenco ao mesmo tempo. Porque uma boa comida, além de sabor, é narrativa. A gente quer ver a história antes de vivê-la no próprio prato. Quer sentir o cheiro, ver o brilho, imaginar o gosto. Viver por tabela a experiência do outro e depois, se possível, roubar a cena. Outro dia fui jurando que ia de saladinha com grelhado. Sabe aquelas com nome natureba, tipo Folhas Verdes da Fazenda? Pois bem. Enquanto eu mastigava a terceira folha de rúcula com cara de missão cumprida, vi a moça da mesa ao lado se afundando gloriosamente numa lasanha borbulhante. Comi minha culpa com azeite extravirgem, levantei a plaquinha invisível do arrependimento e prometi: da próxima vez, só escolho depois do desfile dos pratos e dane-se a consciência pesada e o índice de colesterol. Porque, no fundo, a gente não quer só degustar o pedido. Quer ser o alvo da atenção e inveja das mesas vizinhas, prova maior de que acertou na escolha.