(FreePik) Numa noite dessas, conversando em uma mesa de restaurante com recém-conhecidos e amigos, o assunto caiu em casamento. Era uma turma eclética, de solteiros e casados, novinhos e experientes. Eu era a mais velha e também a que está há mais tempo com a aliança no dedo. Lá se vão 31 anos. Parece que foi ontem e, ao mesmo tempo, que nunca fui solteira. Ficamos ali contando anos de casamento, de namoro, de divórcio. Certa hora, brinquei com uma das presentes, que tinha acabado de contar que estava trabalhando 15 horas por dia, que o casamento dela ia durar para sempre, já que ela e o marido quase não se viam. Claro que era piada. Distância pode separar, sim. Mas não é o caso deles, que encontraram uma fórmula: aproveitar ao máximo o tempo juntos, porque gostam genuinamente da companhia um do outro. Eu, sinceramente, não faço ideia de qual é o segredo para um casamento duradouro e feliz. Acho que nenhum é feliz o tempo todo, afinal, a vida não facilita. Talvez o truque seja entender que, se os tempos bons não duram para sempre, os ruins também não precisam durar. É dar menos peso às pequenas irritações do dia a dia, essas coisinhas banais que, somadas, vão minando a relação. Separadas, parecem bobagem: uma toalha molhada jogada na cama, a louça esquecida na pia, o “não vou jantar” avisado quando você já está terminando de cozinhar. Uma amiga quase enlouquecia porque o marido insistia em usar o sabonete de rosto dela para tomar banho. Não sei se ele confundia ou se era provocação deliberada, mas sei que a discussão começava com o sabonete e terminava com um inventário completo de todas as irritações acumuladas em dez anos de convivência. E briga boba é assim: começa com a tampa do vaso levantada e, quando você vê, já está revendo mentalmente cada parente que ele levou para o almoço sem avisar. É o “apertou a pasta de dente no meio” que se transforma em “e outra coisa…”. É o “botou a panela quente na bancada de madeira” que termina em “e você sempre faz isso!”. Quando criança, eu tinha a impressão de que meus pais eram um casal de comercial de margarina. Namoravam desde a adolescência e concordavam em tudo. Gostavam das mesmas coisas, embarcavam nas mesmas aventuras, como levar três filhas para acampar quando chegar ao Litoral Norte já era, por si só, uma expedição. Uma vez, ficamos ilhados porque caiu barreira na estrada. Tivemos que estender a temporada na barraca. Nós, crianças, amamos. Eles, aparentemente, também. Depois a gente cresce e percebe que não era bem assim. Eles só deixavam para discordar longe da gente. E, pensando bem, talvez tenha sido isso que nos deu segurança. Porque, convenhamos, é difícil segurar o ímpeto de extravasar, com ou sem plateia infantil. No fundo, casamento é essa dança: uma coreografia improvisada entre a escova de dentes deixada fora do copo, o ronco de madrugada, a mania de falar “a gente” para prometer algo que só você vai fazer… E a escolha diária de relevar ou não. Talvez não exista segredo. Ou talvez seja justamente esse: colecionar histórias, até das brigas bobas, e conseguir rir delas juntos depois.