(FreePik/ Gerada por IA) Macchiato, Flat White, Cappuccino, Americano, Mocha, Cortado, Ristretto... Quando foi que pedir um simples cafezinho virou tão intimidante? Saudade do velho pingado. Eu adoro uma novidade gastronômica, mas quando a experiência precisa de um guia ilustrado para não passar vergonha no balcão, dá até frio na barriga. Esses dias vi um post no Instagram de um barista explicando cada nomezinho com desenhos. Sabe aquela máxima “precisa que desenhe?” Pois é. Aqui, ela é literal. E, claro, nasceu até um termo para isso: cafezinho superfaturado. Porque se o café nosso de cada dia já está custando os olhos da cara, imagina um que a gente nem decifra o nome? Mas justiça seja feita: eles são quase sempre incríveis. São caros, sim. Mas dá para dizer que é um investimento em alquimia. Tudo pensado: do grão à torra, da moagem à água, da espuma à xícara. Uma coreografia que mistura técnica, talento e um pouco de bruxaria. Em Santos, a gente tem baristas de primeira linha — até campeão brasileiro no currículo. Afinal, poucas cidades carregam tanto o DNA do café como a nossa. Tem rua no Centro que parece ter difusor de aroma de grão recém-moído, de tão impregnada na história. Mas, curiosamente, quanto mais sofisticados ficam os métodos — filtros japoneses, máquinas italianas, engenhocas francesas —, mais gente tem voltado ao bom e velho coado em casa. Talvez porque café, antes de ser ciência, seja pausa. Na fase do home office, por exemplo, uma das coisas que mais me faziam falta era exatamente esse momento de parar e conversar com os colegas em volta da cafeteira. O radialista Flávio Filho, da Tri FM, chama isso de “show do intervalo”. E é isso mesmo: um respiro no meio da correria. Aliás, você sabia que o filtro de papel foi inventado em 1908 por uma alemã, Amalie Melitta Bentz, que não aguentava ver pó no fundo da xícara? Pois a minha avó Nilva, que nasceu em 1923 e viveu até 2019, ignorou solenemente essa modernidade. Quase até o fim, era fiel ao filtro de pano, coado lentamente, como quem medita. Jogava a água em fio, esperava escorrer no bule antigo, depois transferia pra velha garrafa térmica. E lá estava ele, o filtro, lavadinho, secando no escorredor, com seus prováveis 50 anos de vida útil. Quase um membro da família. Ainda posso sentir o cheiro e o gosto daquele café. Talvez um dia eu aprenda a diferença entre um Flat White e um Cortado sem precisar googlar. Quem sabe não colecione outras memórias com algumas dessas bebidas fantásticas? Afinal, a gente está sempre aberto a uma pausa para um cafezinho, até os de nomes complicados.