(Alexsander Ferraz/AT) Janeiro chega em Santos com aquele aviso não oficial: a Cidade entrou em modo resort. O veranista anda de carro devagar pela orla, como se estivesse num passeio guiado, atravessa a rua sem olhar, relaxado. Está de férias. Dá até uma contagiada. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A travessia da orla, aliás, vira um evento coletivo. Multidões atravessam a rua carregando cadeiras, guarda-sóis, coolers e crianças fofas levemente coradas de sol. Parece uma migração organizada, ou quase isso. E quando começa a trovejar, a cena ganha clima de Réveillon: todo mundo voltando para casa ao mesmo tempo, passos apressados, olhares para o céu, sacolas balançando, aquela pressa meio caótica de quem quer chegar antes da chuva apertar, um pouco assustado com os alertas que apitam nos celulares. No meio disso tudo, o santista reclama do calor olhando para o mar. Uma contradição perfeitamente local. O sol castiga, a umidade abraça sem pedir licença, a roupa gruda no corpo, mas ninguém sugere seriamente ir embora da cidade. Reclamar faz parte, assim como ficar. A gente reclama tendo total conhecimento de que morar aqui no ‘resort’ de tantos é um privilégio. E se o céu fecha e a praia esvazia, a multidão não desaparece, só muda de endereço. Migra para os bares, restaurantes, sorveterias. Todos. Ao mesmo tempo. Mesas disputadas, balcões ocupados por gente que chegou cinco minutos antes de você. O comércio agradece, os cardápios ganham novidades, surgem drinques diferentes, receitas de verão, pratos mais leves, ousadias que só aparecem quando a casa está cheia. É difícil achar uma mesinha? É. Mas também é difícil não gostar da cidade vibrando assim. O veranista reclama do preço do café, da cerveja, do estacionamento, do trânsito, com aquela indignação sincera de quem acha que tudo deveria funcionar como um resort all inclusive. No fim, ele volta no ano que vem. A orla num sábado de sol é um espetáculo à parte. Um grande reality show sem apresentador. Bicicletas surgem de todos os lados, patinetes elétricos passam em um silêncio ameaçador, corredores em ritmo olímpico desviam de famílias inteiras, cachorros pequenos se acham grandes, cachorros grandes se acham donos da calçada. Carrinhos de bebê avançam como tanques, enquanto alguém para do nada no meio do caminho porque o jardim “ficou bonito nessa luz”. Ficou. Todo dia fica. Mas tudo bem. A gente ama exibir a beleza e a grandeza dele. O santista atravessa esse cenário com a destreza de quem já viveu muitos verões. A umidade incomoda, a roupa gruda, o cabelo decide viver por conta própria. Uma parada para uma água de coco e fazer o caminho pegando atalhos por sombras estratégicas fazem toda a diferença. O turista aproveita a cidade sem nem perceber que ela não para. Continua trabalhando, correndo, atravessando a orla em zigue-zague, fazendo compras no supermercado, esperando o ônibus ou o VLT, levando o cachorro para passear porque ele exige, faça sol, faça 40 graus, seja janeiro. No fim das contas, convivemos bem. Porque quando março chega e o modo resort é desligado, sobra o silêncio conhecido, a vaga de estacionamento reaparece (nem tanto) e a orla volta a ser atravessável. E aí, curiosamente, dá até uma saudadezinha.