(Reprodução) Minhas lembranças moram nos cheiros. Estava no meio de uma trilha noturna no Rio Negro, na Amazônia, quando, de repente, me senti em casa. Fui invadida pelo aroma delicioso da dama-da-noite, a flor branca que já foi presença comum nos nossos jardins, mas anda meio rara por aqui. Uma pena. Sempre amei caminhar e, sem aviso, ser envolvida pelo perfume adocicado e floral das suas pétalas. Engraçado como, na adolescência, eu achava enjoativo. Hoje, é pura nostalgia. Há pessoas que criam sua marca registrada. Nunca mudam de perfume. Um amigo querido, por exemplo, usa desde sempre a antiguinha Água de Rosas. Já ouviu muita piada por isso, afinal esse aroma é associado à velhice desde que éramos crianças. Imagine hoje. Mas, para mim e para todos que o conhecem, esse é o cheiro dele. Eu, ao contrário, sou volúvel. Adoro experimentar novos aromas, novas essências. Acho que enjoaria de ter um perfume único. Mas identifico lugares e viagens pelos cheiros. Salvador, por exemplo, dispensa apresentações. Basta descer do avião, em Lauro de Freitas, para sentir o azeite de dendê no ar. Para mim, é um abraço. Na Hungria, posso dizer, a páprica domina as feiras e mercados. Tem um defumado adocicado, inconfundível. Fui no inverno, quando as ruas estavam tomadas de barraquinhas com caldeirões fumegantes de sidra, perfeita para esquentar o corpo. A fumaça impregnada de maçã e canela era puro conforto. Pompeia, aos pés do Vesúvio, congelada no tempo desde 79 a.C., tem aroma de mar com limão-siciliano. É cercada por limoeiros de frutos amarelo-vivo, num contraste cinematográfico com o azul do Mediterrâneo. Em La Spezia, uma pequena cidade italiana, cada rua tem suas laranjeiras. Além de lindas, perfumam o ar de um jeito indescritível, como nos campos de lavanda de Cunha ou da Provence. As paisagens nos marcam, mas são os aromas que nos transportam. Basta senti-los novamente e pronto, como num passe de mágica, estamos de volta ali. E nada se compara a sentir-se em casa. Foi assim com a dama-da-noite, que, no meio da floresta, me trouxe de volta ao mar. Santos, para mim, tem cheiro de água salgada, mas também de café. Tem aroma de pão assando a toda hora, um amém para as padarias em cada esquina, e de terra molhada, aquela que anuncia que a chuva vem chegando.