(FreePik) Páscoa, lá em casa, sempre começou antes do domingo. Tinha um ritual que se instaurava na Sexta Santa, aquele dia mais quieto, com aroma de azeite e lembrança. Era dia de bacalhoada da minha mãe. E, sim, pode parecer estranho, mas a gente – ainda criança – ficava esperando por esse bacalhau com a mesma ansiedade que outras crianças esperam pelos ovos de chocolate. Afinal, essa iguaria cara só era vista no Natal e na Semana Santa e isso merecia reverência. A travessa era uma pintura. Camadas coloridas de pimentões vermelhos e verdes, rodelas generosas de batatas, lascas macias de bacalhau, cebola e alhos fatiados e uma chuva de azeite que brilhava no forno como ouro (agora vale quase isso). O perfume era um aviso: “vem que tá pronto!”. Espalhava-se pela casa inteira, grudava na roupa, no cabelo e na memória. Mas o ápice, para mim, era o caldinho do fundo da assadeira. Precioso, era disputado colher por colher. A gente derramava sobre o arroz branco e se fartava sem cerimônia. A sobremesa? Pavê. Sempre ele. O clássico dos clássicos da família brasileira. Hoje, ele disputa as mesas com banoffes, taças com creme de pistache e qualquer coisa que leve Nutella. Mas, naquele tempo, bastava o pavê para encerrar o almoço com dignidade e afeto. No domingo, a cena mudava. Começava a peregrinação pelas casas das avós. Duas paradas obrigatórias: vó Nilva e vó Maria. Lá íamos nós, em busca dos ovos de chocolate, das brincadeiras com os primos e, claro, da segunda rodada de fartura. O almoço de Páscoa tinha ares de Natal, porém um pouco mais comedido. Lombo assado, farofa, maionese e aquele carinho que não cabe em receita. Vó Nilva era previsível no melhor sentido: cuscuz e rocambole de presunto e queijo. Era sua assinatura. Não tinha reunião familiar sem eles (ainda bem!). Na casa da vó Maria, o cardápio variava. Mas o que ficou mesmo foram os lanches da tarde. Sequilhos, que derretiam na boca, bolinho de chuva que, de tão redondinho, virava sozinho no óleo quente. Eu assistia, encantada, até ser gentilmente convidada a sair da cozinha – “vai se queimar, menina!” O café era servido naquelas xícaras finas, com bordas douradas e florzinhas cor-de-rosa, pintadas à mão. Ficavam expostas na cristaleira da sala, que parecia um altar da delicadeza. O ponto focal da casa. Hoje, a Páscoa é outra. Mais digital, mais distante. Minhas sobrinhas moram longe, mas minha irmã capricha nas pistas da caça aos ovos. A gente participa por chamada de vídeo. Ontem mesmo, mandei o chocolate pelo iFood, facilidades da tecnologia. Elas esperaram no portão do condomínio como quem aguarda mágica. E, depois, pelo celular, dividimos risos e alegrias através da tela. As formas mudam, mas o sentido não. Páscoa sempre foi isso para nós: não só as pegadas do coelho, mas os rastros da memória. O cheiro do alho dourando, a disputa pelo fundo da travessa, a piada do pavê ou para comer, o fuzuê da família reunida. É isso que fica. Sempre.