<p data-end="455" data-start="0">Essa semana fui ao aniversário de 80 anos de uma tia do coração, a Soninha. Diante da animação e da beleza dela — sempre impecável — ninguém diria que tem essa idade. Soninha não é tia de sangue, mas daquelas que a vida nos presenteia e o tempo transforma em família. Sou amiga da filha dela há 36 anos e, no fim das contas, é isso: amizade é laço forte, irmandade de alma. Tenho amigos irmãos, desses incondicionais. E isso, convenhamos, é muita sorte.</p> <p data-end="815" data-start="457">No jantar em que nos reunimos para celebrar a tia Soninha, conhecemos o tio Tito, no auge dos seus 96 anos. Um encanto de pessoa — simpático, lúcido, cheio de histórias. Lembrava datas, nomes e acontecimentos com uma precisão invejável, dando um banho na memória de muita gente. Se emocionou com o discurso da sobrinha, que nasceu quando ele tinha 16 anos.</p> <p data-end="1345" data-start="817">Enquanto ouvia, lembrei dos meus avós, que também ultrapassaram a casa dos 95, lúcidos e firmes. Não tão bem-humorados quanto o tio Tito — mas aí talvez seja questão de temperamento. Meu avô Wilson faleceu aos 100. Minha avó Nilva, cheia das suas superstições, não gostava de comemorar datas “cheias”: 70, 80, 90… Então, fizemos uma grande festa quando ele completou 87. O tema foi “87 rumo aos 100”. Tivemos chapéus, camisetas, banners, faixa — e até uma comediante drag queen para animar. Meu avô, piadista como era, adorou.</p> <p data-end="1650" data-start="1347">Costumo dizer que o mantra funcionou: ele realmente rumou aos 100. Partiu um mês depois do centenário, após celebrar com todos os netos e bisnetos. Para minha avó, que viveu 77 anos ao lado dele, ficou difícil continuar sozinha. Um ano depois, foi a vez dela nos deixar — quem sabe para reencontrá-lo.</p> <p data-end="1933" data-start="1652">Saí da festa da tia Soninha pensando no envelhecer. Em como o tempo nos molda, nos tira muita coisa, mas também nos dá memórias, afetos e histórias. Talvez o segredo de envelhecer bem seja esse: seguir celebrando, com quem ficou e com quem partiu, os laços que resistem ao tempo.</p> <p data-end="2226" data-start="1935">No discurso, tia Soninha disse que estava muito feliz porque ali só tinha pessoas que ela amava — sua família e seus amigos. E foi impossível não pensar que é justamente isso que faz a vida valer a pena: contar décadas cercada de amor, com histórias para contar e gente querida para ouvir.</p>