(Imagem ilustrativa/ Pexels) De quando eu era adolescente, guardo a lembrança viva dos pedalinhos, ou dos barquinhos a remo, que a gente pegava na Ponta da Praia para chegar ao antigo farol que fazia parte da paisagem da Aparecida. Era o auge das férias de verão, quando eu passava os meses na casa dos meus avós maternos, na Rua Januário dos Santos. A aventura era sempre com a vizinha da minha avó, minha parceira de idade e coragem. Quando faltava dinheiro para dividir um pedalinho, a gente simplesmente nadava. A graça maior era subir no farol, que eu imagino que ainda cumpria a missão de guiar os navios naquela época. Coisas dos anos 1980. Pesquisando depois, descobri que aquele farol era do fim da década de 1960, construído para orientar as embarcações no entra e sai constante da Baía de Santos. Hoje, tecnologias mais modernas tornaram essas velhas sentinelas desnecessárias. Tanto que o farol não existe mais: foi demolido em 2009. Mas, outro dia, vendo imagens de drone, reconheci ali a base dele, aparecendo tímida na maré baixa. Li também que, por um tempo, a Prefeitura colocou um jato de água no local, como um pequeno gêiser. Não cheguei a ver, mas imagino que tenha ficado bonito. São mudanças que vão acontecendo na paisagem e, quando percebemos, já passaram. Nunca entendi por que pararam de alugar pedalinhos ali. Alguém sabe? Acho que ainda fariam sucesso. Sei que hoje a galera do remo domina as águas da Ponta da Praia, mas espaço é o que não falta. Ver a paisagem se transformar provoca uma nostalgia boa. Antigos casarões deram lugar a prédios que arranham o céu. E eu sinto falta daquele tempo em que ir ao cinema incluía, naturalmente, uma pizza na saída. Curioso como isso parece estar voltando: tenho visto um retorno às salas de exibição, agora bem menores. Naquele tempo, mesmo enormes, bastava um filme estrear para a gente acabar assistindo sentada na escada de tanta lotação. E as sessões Coca-Cola nos domingos logo cedo, quem lembra? Fui em muitas com minhas irmãs. Me lembro especialmente do primeiro filme do Superman, com o belíssimo Christopher Reeve (1952-2004). No final, o cinema inteiro aplaudindo. Se a sessão fosse à noite, no final o ritual era pizza no Zi Tereza ou um sanduíche no Hot Stop. Às vezes, a vitamina número 16 da Fonte das Vitaminas com um beirute de rosbife. Sinto até o sabor ao lembrar. Sabe outro lugar que adorava ir? O saudoso restaurante Degrau, na Av. Floriano Peixoto. Mas só quando eu recebia meus primeiros salários da vida, na minha época trabalhando na loja do meu tio Alberto, a também fechada Rock Point, no Shopping Balneário. Sempre pedia Filé à Francesa, apesar do sucesso da cozinha ser a Picanha. Gastava meu dinheiro comendo fora e comprando discos. Afinal, eram bons tempos antes dos boletos de quando a gente passa a ter a própria casa. Tinha ainda a casa de chá As Holandesas, que funcionava num sobrado que resiste até hoje, agora como residência, na Rua Azevedo Sodré. Era quase um cerimonial ir lá com a minha mãe e aproveitar a etiqueta do chá das cinco. Talvez a louça refinada, a decoração temática da Holanda e as funcionárias de tamancos deixassem tudo ainda mais gostoso. Seria bem instagramável hoje em dia. Mais tarde, já crescida, eu e minhas amigas mantínhamos a tradição de nos encontrar ao menos uma vez ao ano no também extinto Chá do Parque Balneário para atualizar as fofocas e nos encher de pães, geleias e bolos, naquela sistema de empanturrar à vontade, que é inimigo de qualquer dieta, mas perfeito para esquecer do tempo e se perder em conversas entusiasmadas. Hoje, há uma infinidade de cafés, cardápios criativos e opções para todos os gostos. Não há dúvidas de que ganhamos variedade. Mas, lá no fundo, sinto falta daquele rito solene, da cadência lenta, da impressão de que cada programa carregava um significado. Talvez seja só saudade. Talvez seja só a paisagem que mudou, e a gente junto com ela.